Este é um blog sobre direitos animais e veganismo, abordados a partir da experiência de quem não sabia quase nada a respeito até o dia em que.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Puxa, Sonia, que pena

Dezembro passado o Felipe e eu assistíamos ao programa Happy Hour, no GNT, cujo tema do dia era "meter o pé na jaca" no final de ano, ou seja: sobre os excessos alimentares nas festas de Natal e Ano Novo. Entre os convidados, a jornalista e escritora Sonia Hirsch, que há muito tempo tem um trabalho bastante conhecido sobre alimentação e saúde. Lá pelas tantas, Sonia, vegetariana durante anos e que voltou a comer carne, comentou que por causa disso agora era de novo "uma pessoa normal", e acrescentou que, como jornalista, e portanto "curiosa", não podia mesmo ficar restrita por uma dieta cheia de interdições.

Putz!

Sonia se tornou uma referência pra mim depois que li o seu Prato Feito, livrinho cuja primeira edição saiu em 1983, com receitas e dicas sobre alimentação (basicamente) vegetariana que comprei (já na terceira edição), segundo a anotação na folha de rosto, em 17 de dezembro de 1986. Nele, com o seu texto deliciosamente coloquial, ela fala sobre "não ser radical", "seguir a própria intuição" e, principalmente, "nós somos o que comemos". Explica os horrores do açúcar refinado, dos pesticidas agrícolas, dos problemas de hormônios & cia. na criação de animais para o abate e lembra que leite de vaca é coisa para bezerro, não para humanos. Em suma, defende a alimentação vegetariana, ainda que não repudie por completo o consumo de produtos de origem animal, pois entre as receitas estão incuídos: 1) sardinha, 2) camarão, 3) siri, 4) vongoli, 5) polvo, 6) cherne, 7) ovas de tainha, 8) paella, e mais duas receitas de ricota e quatro receitas com peito (porque a carne é menos irrigada) de frango (caipira, é claro). São portanto 14 receitas com ingredientes de origem animal, que ocupam seis das 53 páginas do livro dedicadas a elas. Para alguém cujos dentes sentem saudade de um bife, Sonia recomenda seitan (bife de glúten) e carne de soja.

Quer dizer: a concessão às receitas carnívoras não chega a lançar nenhuma dúvida sobre o foco principal do livro, os benefícios da alimentação vegetariana. Está na página 2:

"E o que mais? Ah, sim, os animais. Ora, deixe os bichinhos em paz. O quê? São bons demais? Bom então tá, se não tem jeito, tá feito. Nada de preconceito. Qual é o grilo? Não é grilo só não, é que assim que morrem começa a decomposição, então... Ao menos prefira a carne branca, aquela onde o sangue não estanca. Peixe fresco, galinha de quintal, ovo de pai e mãe, tudo em pequenas porções e com montões de verdura pra acompanhar. Quem come muita carne são os leões, os tigres, as panteras, as oncinhas que têm garras pra caçar e não entendem de cozinha."

Lá em 1986 eu lia isso e assinava embaixo. Sonia não comia carne, não era favorável ao consumo de carne, maaaaas entendia que, às vezes, "não tem jeito". Afinal, cuidados na alimentação dizem respeito a você e seu bem-estar, né não? Aí, tempos atrás a Cláudia comentou comigo: "Sabia que a Sonia Hirsch voltou a comer carne?" Não sabia e achei bem esquisito, mas entendi isso como uma flexibilização cabível. Sonia Hirsch é Sonia Hirsch, pô! Se ela não souber o que está fazendo com a própria alimentação, quem saberá?

No programa do GNT a história foi contada. Numa festa de Natal a que tinha sido convidada, ela foi colocar na mesa o prato que havia levado e viu, bem ali do lado, carne de porco. Não lembro se costela ou lombinho, mas era um prato pelo qual ela "era louca" antes de se tornar vegetariana. Aí, pensando no seu prazer e no seu bem-estar, decidiu voltar a comer carne. Porque, afinal, a gente não pode ficar preso a uma cartilha que determina que abramos mão de coisas das quais gostamos. Esse foi o argumento colocado, e a partir dele se entende que negar essa cartilha é, pelo visto, o que ela julga "ser normal".

Nem vou comentar sobre a não percepção da outra cartilha, a que determina que busquemos as coisas das quais gostamos ainda que isso custe a vida alheia, pois vou direto ao ponto que decorre daí: a deliciosa, tranqüilizadora e superior sensação de ser alguém normal. Pode até parecer, mas não foi uma piada com o sentido escorregadio e de saída problemático da palavra "normal". Não foi também apenas um lembrete engraçadinho e infeliz do quanto podemos nos tornar "radicais" ao seguir "ideologicamente" uma dieta, mas antes uma afirmação do quão fora da normalidade estão aqueles que não colocam seus prazeres em primeiro lugar. O clichezão pra lá de surrado: "a obrigação da gente é ser feliz".

Ahã.

Claro, relendo agora o Prato Feito para citá-lo neste post deu pra ver que essa concepção já estava lá, sempre esteve lá e é o mote que agora justifica a volta ao padrão onívoro. Se a vida é pra ser vivida, tratemos de curti-la ao máximo, com o máximo de saúde, o máximo de felicidade. Quem discordaria disso? A pequena concessão à carne nas receitas foi uma porta que nunca deixou de estar aberta, por isso não há nada de surpreendente no retorno de Sonia à sua própria normalidade... é só a "volta dos que não foram".

Defendo que cada um faça consigo o que bem entender, mas puxa: com um mínimo de informação já sabemos que ao escolher um comportamento (ou uma dieta) em vez de outro estamos escolhendo também o tipo e o quanto de impacto e sofrimento infligiremos aos outros seres e ao meio. Nem precisa ser jornalista ou curioso pra saber disso. Dá uma pena danada que mais de 20 anos trabalhando com afinco sobre o tema não tenha aberto para Sonia a porta-para-além-do-próprio-umbigo, mas o que realmente chateia é vê-la sucumbir à tentação dessa normalidade tão... "normal". Ela própria, nas vezes em que se expôs fora do gueto ipanemense dos anos 1970 e 1980, deve ter sentido na pele o que é ser considerado fora da normalidade da maioria bem-pensante. Mas agora a boa filha à casa torna, pela via segura do seu autocentramento. Automotivação. Auto-referência. E, mais triste que tudo, passando uma sensação de desistência. "Se não tem jeito, tá feito". A concessão de 1983 virou aconselhamento em 2007. Não mude. Não saia do lugar. Não coloque idéias novas pra interagir com as idéias velhas. Não olhe para além de suas pequenas preferências e necessidades individuais.

Mas e o coletivo? Bem, do coletivo fique apenas com sua face difusa e não ameaçadora, portanto não se detenha nas contradições que surgem, nas urgências que tiram o seu chão e nos problemas que insistem em gritar na sua cara. Não olhe pra isso. Olhe para a grande massa sem nome ao redor, veja só como você também faz parte dela. É tranqüilizador, não é? A vida de sempre, os hábitos de sempre, as soluções de sempre. O futuro a Deus pertence e o presente é tratar de garantir as satisfações mais imediatas. Pouca farinha, meu pirão primeiro! Ah... não há nada como viver ao máximo a felicidade de uma vida inteiramente normal... Alguém aí discorda disso?

[ a ilustração do post é de Norman Rockwell, Thanksgiving Dinner, 1943 (ou Freedom from Want), da série "Four Freedoms", feita para o Saturday Evening Post a partir de um discurso do presidente Franklin D. Roosevelt; Sonia Hirsch tem um site com informações sobre seus livros e alguns textos disponíveis, que você pode visitar aqui ]

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Adeus ano velho, feliz ano novo

Metade de janeiro, já. Será que ainda dá tempo de desejar feliz ano novo?

Pensando sobre o que postar, resolvi publicar meu balanço de fim de ano. Então lá vai.





o que fiz de realmente importante em 2007:
  • dei espaço para que as caídas de ficha do final de 2006 [ leia (ou releia) aqui ] seguissem naturalmente seu curso interno e operassem as mudanças externas no meu comportamento cotidiano
  • consumi menos
  • li e me informei mais

o que não fiz de realmente importante em 2007:
  • exercício físico

o que quero fazer de realmente importante em 2008:
  • óculos novos
  • injeção de B12
  • consumir menos
  • ler mais
  • exercício físico

A todos que andaram aqui pelo blog visitando e comentando (por escrito ou pessoalmente), meu superobrigado pela atenção e carinho. Valeu demais a troca de idéias, espantos e risadas.
No mais, desejo de coração que este ano seja bacaníssimo para todos os habitantes sencientes deste trepidante planeta: menos sofrimento e mais liberdade. E especialmente para nós, animais humanos: mais lucidez e compaixão, sempre.

Beijo grande e feliz 2008!

sábado, 17 de novembro de 2007

Abrace a Amazônia pelo fim do desmatamento















Enquanto o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) divulga seu quarto relatório, com notícias ainda piores sobre a velocidade das transformações climáticas causadas pelo aquecimento global, o Greenpeace Brasil promove uma ciberação de abraço virtual na Amazônia, com texto endereçado ao presidente Lula pedindo pela redução a zero do desmatamento até 2015. Basta entrar no site e se integrar à corrente.

Participe: http://www.greenpeace.org.br/desmatamentozero/

[ o site do IPCC você acessa aqui ]

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Assimetria

Acabo de ler o ótimo livro de Carlos Michelon Naconecy, Ética e Animais (EDIPUCRS, 2006), que tem como subtítulo "um guia de argumentação filosófica" e trata, basicamente, disso: elencar as justificativas mais comuns que sustentam o pensamento dominante de exploração dos animais e quais são os contra-argumentos éticos correspondentes, caso a caso. Uma rápida noção introdutória sobre ética (filosofia para não-filósofos e tipos de teorias éticas) abre o volume, e a descrição sucinta das principais vertentes da defesa dos animais o completa. Pena o autor não citar, nem como sugestão de leitura, os textos de Gary Francione, especialmente a crítica à abordagem bem-estarista que surge das brechas deixadas pelo utilitarismo de Peter Singer, mas esse assunto por si só – quem sabe? – pode render um outro livro inteiro.

Da leitura, feita num só fôlego, saí com a sensação muito concreta da enorme assimetria entre a defesa do direito ao bife e a defesa do direito do boi. Os argumentos colocados tão didaticamente lado a lado fazem a delícia de quem aprecia exercícios lógicos, mas fazem mais: redundam, por diversos caminhos, a divergência básica das motivações que estão por trás de uma e outra posição. A questão-chave colocada pelo ativismo dos direitos animais é bastante enxuta: a afirmação de que devemos incluir os animais não-humanos no círculo da comunidade moral atualmente contemplada pelas nossas preocupações éticas. Quem defende o direito ao bife responde a isso dizendo: "Não."

Claro, você sabe e eu sei que a maior parte das pessoas que defendem seu bife não se acredita deliberadamente vetando considerações de cunho ético sobre o boi. Talvez porque não haja consciência de que uma coisa está implicada na outra, e um bom exemplo recorrente é a revolta espontânea contra maus-tratos sofridos pelos animais. Recentemente a mídia nacional reproduziu a reportagem do Jornal do Almoço, um dos programas de TV mais antigos e mais vistos no Rio Grande do Sul, sobre as "corridas de bois de canga" na fazenda do pai do prefeito de Vale Verde, interior do estado. A começar pelas apresentadoras do programa, todos se mostraram "chocados" porque os bois (na verdade, touros), durante a competição em que ficavam presos à canga, além de tudo eram cutucados com uma vara que tinha pregos na ponta. A matéria da TV mostrou com nitidez um fiapo de sangue escorrendo do corpo de um deles. Bom, só de lembrar que a maioria dos gaúchos assistiu a essa reportagem enquanto almoçava provavelmente alguma comida à base de carne, é de causar espanto que alguém tenha se espantado... Um fio de sangue e o uso dos animais para jogatina são ocorrências mais que suficientes para condenar a todos os envolvidos nessa crueldade, mas de onde vem e por qual processo as pessoas imaginam que o bife se materializa nos seus pratos?

Não precisamos de varas com pregos, o bife cotidiano já é a negação do visto de entrada do boi na comunidade moral; a partir disso, qualquer consternação pelos maus-tratos sofridos pelo animal vai ser necessariamente fruto de ignorância, incoerência ou cinismo. Diz Naconecy:

"Nós pressentimos os inconvenientes que uma ética para os animais traria para nossos interesses, uma vez que, obviamente, os interesses dos membros de qualquer grupo são mais bem atendidos mantendo o tamanho desse grupo reduzido."

O autor segue citando Dale Jamieson:

"Quanto maior for a participação na comunidade dos iguais, menores serão os benefícios que recebem seus membros. Essa é, em parte, a razão pela qual tem havido uma resistência histórica à ampliação do círculo da preocupação moral. As elites da sociedade têm resistido à reclamação de igualdade por parte das classes inferiores; os homens têm resistido às reclamações das mulheres, e os brancos têm oferecido resistência às reivindicações dos negros. A perda de vantagens injustas é parte do custo da vida em uma sociedade moralmente bem-ordenada, mas é típico que os que têm que pagar por esse custo tratem de evitá-lo."

Eis a assimetria: os discursos da defesa do bife e da defesa do boi falam fundamentalmente sobre como devemos nos comportar, mas enquanto a motivação deste último se baseia na ampliação da visão que passa a enxergar no boi um Outro, os que defendem seu bife estão apenas fazendo isso mesmo: tratando de garantir "o seu", não importa o quanto levantem as sobrancelhas diante de uma matéria chocante na TV em plena hora do almoço.

[ a imagem que ilustra o post foi retirada da matéria do Jornal do Almoço, que você pode conferir aqui; a citação de Naconecy está na página 67, onde também está o trecho de Jamieson citado pelo autor (que você pode ler, na íntegra e em inglês, aqui) ]

terça-feira, 6 de novembro de 2007

Deslocar para não sair do lugar


Recebi um e-mail da Lut repassando a notícia de que um artista plástico costa-riquenho apresentou o seguinte trabalho numa exposição: um cão de rua, esquálido e doente, foi amarrado num canto da galeria e ali ficou, sem que lhe dessem água nem comida, até morrer. Em seguida se conta que esse mesmo artista foi um dos escolhidos para representar seu país na Bienal Centroamericana Honduras 2008, e se conclama o leitor a assinar uma petição pelo boicote à sua presença no evento.

Fui checar a informação na Internet e há de fato muito material sobre o assunto, diversos blogs comentado o caso e, claro, com as pessoas reagindo indignadamente. Com toda razão.


A exposição ocorreu em Manágua, e a matéria de 4 de outubro do jornal La Nación, da Costa Rica, conta como foi. Transcrevo abaixo algumas partes:

"El artista costarricense Guillermo Vargas, más conocido como Habacuc , está envuelto en una gran polémica debido a la muerte de un perro callejero dentro de Exposición N° 1 , muestra que se realizó en agosto pasado en Managua (Nicaragua). [...]
Como parte de su exposición, el artista enfrentó al espectador a un perro callejero flaco, enfermo y con hambre amarrado a la esquina de la sala. Él capturó al animal en un barrio pobre de Managua. El perro murió tras un día en la exposición [...]. La muestra también incluyó la frase, escrita con alimento de perro, 'Eres lo que lees' [...]"

O artista, que deu ao cão o nome de Natividad, disse que o trabalho era uma homenagem a Natividad Canda, nicaragüense que morreu após ter sido atacado por dois cães rottweiler. Segue a matéria:

"'Me reservo decir si es cierto o no que el perro murió. Lo importante para mí era la hipocresía de la gente: un animal así se convierte en foco de atención cuando lo pongo en un lugar blanco donde la gente va a ver arte pero no cuando está en la calle muerto de hambre. Igual pasó con Natividad Canda, la gente se sensibilizó con él hasta que se lo comieron los perros', explicó .

Incluso agregó: 'Nadie llegó a liberar al perro ni le dio comida o llamó a la policía. Nadie hizo nada'.

Al ser cuestionado acerca de si alimentó al animal o no, el artista se negó a responder.¿Por qué no usó otro medio de expresión? 'Recojo lo que miro... El perro está más vivo que nunca porque sigue dando qué hablar', dijo."

São Francisquinho de Assis, valei-nos!

Tomado como obra artística, esse exercício de crueldade é fraco "do primeiro ao quinto", numa expressão antiga que meu pai gostava de usar. Quase não há o que falar a respeito, mas para não passar batido quero apontar apenas a falha óbvia: o artista pretende denunciar a hipocrisia do público que só "vê" o cão quando este está deslocado da rua, mas para efetivar sua denúncia tem de incorrer em hipocrisia igual ou pior: acaso ele vê o cão de maneira tão distinta assim? Ele se exime de dizer se a sua atitude de deixar o cão à morte é certa ou errada, mas propõe que o público seja julgado. Mas de onde, de que planeta esse sujeito está falando? Quem ele pensa que é? Apesar de se acreditar diferente "de la gente", já que ungido de justificativa artística, o discurso pretendido só faz desmoronar sobre si mesmo. Não há crítica nem julgamento, o que há é redundância, uma oitava acima. Ele vai em busca do desgraçado num bairro pobre de Manágua (onde para capturá-lo contou com a ajuda de cinco meninos, a quem deu um troquinho), e desde antes está prevendo o próprio trabalho, a instalação na galeria, como será a reação das pessoas, etc. Vê tudo no processo, menos o cão. Argumentar que ninguém fez nada para tirar o animal daquela situação é de uma falta de preparo intelectual que denuncia o artista sem estofo, e de um cinismo que só esclarece o ser humano profundamente perdido em autocentramento. O cão não está mais vivo agora porque segue dando o que falar, é o contrário: falam dele agora justamente porque está morto. Quem parece estar "mais vivo" depois disso é o assassino.


De resto, galerias e vernissages à parte, o que sobra é bem simples: a energia gasta para achar e capturar o cão adoentado e faminto poderia ter sido usada para tentar encontrar uma melhor condição de vida para ele. Até a indiferença mais brutal teria sido menos danosa do que o olhar arrogante que identificou naquele ser um objeto útil para um fim alheio e contrário ao seu mais básico e legítimo interesse: viver.

O que seria, realmente, ver o cão?

Do ponto de vista antiespecista, toda a crueldade cometida contra o pobre cão tem como gerador o fato de ter sido tratado como objeto passível de ter dono. Por não ter dono foi livremente capturado das ruas, e então por ter dono deixaram que ficasse à mercê da vontade deste, esperando a morte numa galeria de arte. Todas as outras discussões são acessórias a esse fato central.

É a crueldade "desnecessária" do artista infeliz para com o cão que detona nossa indignação instantânea, mas não faltam crueldades equivalentes contra animais não-humanos embutidas nas nossas atividades humanas mais cotidianas. Se é possível discutir a partir desse episódio triste algo como "o que é arte" e qual deve ser o limite dessa atividade humana tão nobre, devemos lembrar que também é possível discutir "o que são as necessidades humanas" de companhia, alimentação, vestuário, entretenimento, pesquisa científica, etc.

Sabemos todos, ainda que instintivamente, que não há atividade humana, por mais nobre, que prescinda de um comportamento humanamente responsável.

Respondi ao e-mail da Lut dizendo a ela (pela centésima vez) uma citação de Clarice Lispector: "Quanto a escrever, mais vale um cachorro vivo."

[ as fotos foram tiradas de um blog que documenta a exposição, que você vê aqui; a matéria do jornal La Nación você lê aqui; a petição para o boicote à participação do artista na Bienal Centroamericana Honduras 2008 pode ser assinada aqui ]

sábado, 20 de outubro de 2007

Palavras de centauro

Medéia, filme de Pier Paolo Pasolini de 1969, fala da sobrevivência de aspectos bárbaros no mundo civilizado, e as conseqüentes tensões disso. Pasolini afirmava que "barbárie" era a palavra que mais amava, e o sentido aqui para o termo é o da percepção mágica da natureza, primitiva e pré-civilizada, em contraposição ao pragmatismo burguês da sociedade de consumo. Sobre o filme, diz:

"Medéia é a confrontação do universo arcaico, hierático, clerical com o mundo de Jasão, mundo ao contrário racional e pragmático. Jasão é o herói atual (a mens momentanea) que não somente perdeu o sentido metafísico como nem mais se coloca questões dessa ordem. É o 'técnico' abúlico, cuja procura é unicamente dirigida para o sucesso."

Há duas seqüências primorosas em que o sábio Quíron (no mito original e na peça de Eurípedes, mas apenas "o centauro" no filme) fala sobre o passado pré-civilizado e a herança deixada por ele. Na primeira, enquanto Jasão cresce sob a proteção do centauro, este lhe diz:

— Tudo é santo, tudo é santo, tudo é santo. Não há nada de natural na natureza, meu rapaz. Guarde isto na memória: quando a natureza parecer natural a você, tudo terá acabado, e começará uma outra coisa.

Jasão se torna adulto e deve retomar o reino que foi usurpado de seu pai por seu tio, mas para isso este lhe impõe o cumprimento de algumas tarefas, entre as quais recuperar o velocino de ouro. Na busca pelo velocino numa terra bárbara e distante encontra Medéia, que, além de ajudá-lo na tarefa, deixa seu mundo pré-civilizado por amor a ele. Os dois ficam juntos e seguem para Corinto, mas a certa altura ele está prestes a abandoná-la para ficar com Gláucia, filha do rei, Creonte. Nesse momento reencontra o centauro, e o diálogo dessa segunda seqüência é:

— Jasão!
— Como veio parar aqui? Como veio parar aqui?
— Voce quer dizer como viemos parar aqui.

Na verdade o centauro se apresenta duplicado, na sua forma original (meio homem, meio cavalo) e na forma humana, civilizada. Ao perceber isso, Jasão diz:

— Mas é uma visão!

Ao que o centauro humanizado responde:

— Se for, é você que a está produzindo. De fato, nós dois estamos dentro de você.
— Mas eu conheci um só centauro.
— Não, você conheceu dois: um sagrado, quando você era criança, e um profano, quando você se tornou adulto. Mas tudo que é sagrado permanece junto à sua nova forma profana. E aqui estamos nós, um ao lado do outro.
— Mas qual é a função do velho centauro, aquele que conheci quando menino e que você, novo centauro – se bem compreendi – substituiu não fazendo-o desaparecer, mas tomando o lugar dele?
— Ele, naturalmente, não fala, porque a sua lógica é tão diferente da nossa que não se poderia entender. Mas eu posso falar por ele. É sob o signo dele que você, para além de seus cálculos e de sua interpretação, na verdade ama Medéia.
— Eu amo Medéia...?
— Sim. E não tem piedade dela, que compreende sua catástrofe espiritual, sua desorientação de mulher antiga num mundo que ignora tudo aquilo em que ela sempre acreditou. A pobrezinha passou por uma conversão ao contrário, e nunca mais foi como antes.
— E de que me serve saber disso tudo?
— De nada. É a realidade.
— E você, por que razão me diz isso?
— Porque nada poderia impedir ao velho centauro de inspirar sentimentos. E a mim, novo centauro, de expressá-los.

Apesar de perturbado pelo encontro, Jasão dá seguimento a seus planos de casar com a filha do rei e a tragédia se consuma. Medéia em fúria causa a morte de Gláucia, de Creonte e dos dois filhos que tivera com Jasão.

Pasolini já falava nessa época do ritmo acelerado com que o Terceiro Mundo (e o que havia sobrado de "camponês" na Europa) se encaminhava para o neocapitalismo. Havia chegado a era do triunfo da lógica do consumo e do bem-estar, e o decorrente abandono de um sentido de sagrado cuja linguagem não dominamos mais. Um velho centauro para nós agora mudo, mas justaposto a um novo centauro que – felizmente – fala a nossa língua.


[ Medéia foi lançado em DVD no Brasil pela Versátil Home Vídeo, e a imagem que ilustra o post é a cena em que o centauro aparece duplicado a Jasão; a citação em que Pasolini comenta o filme foi retirada da página 119 de As últimas palavras do herege: entrevistas com Jean Duflot, editado pela Brasiliense em 1983 ]

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Feitiços e feiticeiros

Deu na Época on-line: as plantações argentinas de soja transgênica estão sendo atacadas por uma erva daninha que consegue resistir ao herbicida usado, o glifosato. A soja plantada foi geneticamente modificada para resistir ao glifosato, que uma vez aplicado passaria então a eliminar as outras espécies que competem com ela, aumentando a produtividade por hectare. Talvez o gene resistente ao herbicida tenha migrado da soja para a erva daninha, ou talvez esta tenha apenas naturalmente se adaptado a ele, mas o fato irônico é que agora:

“A propagação dessa erva daninha resistente poderá aumentar os custos de produção agrícola na Argentina entre US$ 160 milhões e US$ 950 milhões por ano [...]. Combater a praga exigirá o uso de 25 milhões de litros de outro herbicida todos os anos.”

Ou seja, o lucro almejado virou despesa extra compulsória. Na Argentina, 98% das plantações de soja são de sementes transgênicas desenvolvidas pela Monsanto.

[ a matéria você lê aqui ]

sábado, 29 de setembro de 2007

Aula de matemática e de...






Crescimento da produção anual mundial:

carnes
  • 1999/2001 = 229 milhões de toneladas;
  • 2050 = 465 milhões de toneladas.
laticínios
  • 1999/2001 = 580 milhões de toneladas;
  • 2050 = 1 bilhão e 43 milhões de toneladas.








Ocupação da terra:
  • 30% da superfície terrestre estão destinados à criação de gado (principalmente pastagens);
  • 33% da superfície cultivável estão destinados ao cultivo de forragem;
  • 70% do desflorestamento amazônico devem-se à criação de áreas de pastagem.








A pecuária é responsável por:
  • 9% das emissões de CO2 procedentes de atividade humana;
  • 65% das emissões de óxido nitroso (que no efeito estufa é 296 vezes mais danoso do que o CO2);
  • 37% das emissões de metano (que no efeito estufa é 23 vezes mais danoso do que o CO2);
  • 64% do amoníaco (que contribui com a formação de chuva ácida).







  • 20% da biomassa animal terrestre são constituídos de animais de criação (carne e leite). O impacto da ocupação de terra destinada ao gado e cultivo de forragem é responsável direto pela perda de biodiversidade em 24 ecossistemas importantes, dos quais 15 já se encontram ameaçados.







  • A atividade pecuária contribui mais com o aumento do efeito estufa do que a emissão de poluentes dos meios de transporte.



[ dados da FAO (Food and Agriculture Organization), das Nações Unidas, cujo relatório é tema da matéria "Pecuária é séria ameaça ao meio ambiente", que você lê aqui (em inglês) e aqui (em espanhol). O documento completo, "Livestock's long shadow", você encontra aqui ]

sábado, 22 de setembro de 2007

Ver para crer

"Imagem divulgada pela Nasa mostra que o degelo do oceano Ártico quebrou todos os recordes e encolheu neste ano mais de 1 milhão de quilômetros quadrados." (UOL, 22/09/2007)












[ foto: Reuters/Nasa ]

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

O prazer da carne

Está na Wikipédia: "Na psicanálise de Sigmund Freud, o princípio de prazer é o desejo de gratificação imediata. Tal desejo conduz o indivíduo a buscar o prazer e evitar a dor. O princípio de prazer opõe-se ao princípio de realidade, o qual caracteriza-se pelo adiamento da gratificação. Faz parte do amadurecimento normal do indivíduo aprender a suportar a dor e adiar a gratificação. Ao fazer isso o indivíduo passa a reger-se menos pelo princípio de prazer e mais pelo princípio de realidade."

Com Freud abrindo o post, não há como não acabar falando em sexo: puro sexo instintivo, bem básico, bem natural, descomplicado e gostosamente burro, sexo selvagem, sexo como princípio-de-tudo e onde tudo-é-permitido.

Mas isso existe?

Eu não conheço, e duvido que você conheça. Tem assim de vez em quando uns fiapos, uns ecos distantes de alguma coisa antiga, ancestral, uma pulsação nos conectando diretamente com o primeiro hominídeo bípede, ou mesmo com nosso primeiro parente sexuado. Mas isso são resquícios, ilhotas primitivas que afloram num oceano de conceituações e, inevitavelmente, problematizações. Veja só, logo o sexo, o prazer mais fundamental, tão sujeito a complicações. O básico dos básicos vira arena para todo tipo de questionamentos, hierarquias, legislações e, claro, moralidades.

Aí eu pergunto: o que você acha da prostituição infantil no litoral nordestino? Antes de fechar a questão com uma exclamação indignada, pense bem no atrativo turístico desse mercado, nas divisas em dólar e euro deixadas no comércio local, no sustento dos empregos nas companhias de aviação, agências de viagem, restaurantes, etc., etc., etc. Pense também no prazer indubitável do gringo americano ou europeu alucinado pela brasileirinha de 12 anos: como, afinal, condená-lo?

Hein? Tô falando em pedofilia? Tô defendendo a pedofilia?

Defendendo, não, mas falando, sim. A palvra vem do grego paidophilia, uma junção de "criança" e "amizade" (nesse caso, atração por). Os mesmos gregos antigos que, ao contrário da crença generalizada, não eram a favor da homossexualidade entre parceiros da mesma faixa etária, mas tinham, isso sim, em grande conta pedagógica a convivência homoerótica masculina entre um adulto (erastes) e um menino pré-púbere (eromenos). Altamente hierarquizada e protocolar, a relação entre o rapazinho e seu amigo adulto os mantinha ligados até que o buço surgisse naquele, quando as primeiras manifestações do corpo de homem faziam com que ele deixasse de ser desejável aos olhos do mais velho. Mas antes disso, muita conversa, jogos, educação política e filosófica e, last but not least, coito intercrural, que ninguém é de ferro. Com a chegada da barba, era a vez do eromenos se transformar em erastes e buscar para si um jovenzinho atraente. Era assim entre os cidadãos livres: o erastes obtinha gratificação erótica na beleza e juventude florescente do eromenos, para quem era uma honra despertar o interesse do homem mais velho, significando a garantia da educação mais completa que se podia ter então.
O incrível é que os gregos forneceram a base sobre a qual os romanos construíram, entre tantas coisas, a sua legislação, a noção de justiça e legalidade da qual somos herdeiros diretos, e que usamos hoje para colocar atrás das grades qualquer adulto que se atreva a ter contato sexual com menores. Os gregos também nos legaram os fundamentos da medicina ocidental, e hoje a pedofilia é item do CID (Catálogo Internacional de Doenças, da Organização Mundial de Saúde). É provável que Platão se escandalizasse ao ver o turista assediando a menina no calçadão da praia, mas certamente devido ao fato de se tratar de uma menina. Fosse um moleque, à chegada da polícia e diante da cena do gringo algemado, Platão diria em bom dialeto ático: "Ué, gente, o que é que tem de mais?"

Mas este mundo dá voltas, não?

Falando a partir do ponto de vista do sujeito ativo da ação, pessoalmente não tenho a menor atração por coisas e pessoas infantis, mas mesmo assim devo entender que um homem adulto pode se sentir internamente justificado a ponto de cruzar o oceano e se arriscar a ser preso, pouco importando se damos ou não a isso o nome de doença e crime. É o princípio de prazer gritando dentro dele, e o erro fundamental aqui é ter nascido na época e/ou sociedade errada. Outro tempo e outro lugar, crime e doença desapareceriam como que por encanto, e nem precisava ser na Grécia clássica: pouco mais de cem anos atrás, um senhor branco fazia o que queria com a menina escrava sob inteira tutela da lei, e longe da esfera da doença (pelo contrário: o defloramento de negrinhas virgens era tido como remédio certeiro contra a sífilis). Agora, lembrando que existe a outra ponta que é vítima dessa ação, eu continuo entendendo que esse homem tem seu desejo, mas no que depender de mim ele não terá a mínima chance de fazer qualquer coisa com qualquer menor de idade. Por maiores que sejam os benefícios colaterais em dólar ou euro, sabemos que a menina tem de estar em outro lugar que não as calçadas da prostituição, e ponto. Isso está baseado no que entendemos hoje por direitos da infância e deveres dos adultos. É o princípio de realidade do nosso aqui e agora.

Pra quem gosta de explicações naturalistas para os comportamentos, aproveito para lembrar que entre os golfinhos, nossos parentes inteligentíssimos e de organização social complexa, é comum que indivíduos adultos se masturbem usando o corpo dos mais jovens. Ahá! Quem sabe aqueles gregos sofisticados esfregando os genitais entre as coxas dos meninos não estavam simplesmente dando vazão a um imperativo biológico absolutamente natural?

Não, claro que não. Sexo totalmente burro, de pura corporalidade e isento de conceitualizações já devia ser uma impossibilidade para os pintores de Lascaux, que dirá para os contemporâneos de Platão. Moral da história: os prazeres que buscamos permanentemente nas ações da nossa vida diária nunca são assim tão simples, muito menos naturais e justificáveis apenas "porque sim". Ainda que de vez em quando alguma ilhota de pura fruição primitiva nos lembre de uma ancestralidade não-conceitual, todo o resto é negociação permanente entre os princípios de prazer e realidade, como nos ensina Freud.
Então, da próxima vez que em resposta à evidência do abatedouro você justificar o bife no prato simplesmente "porque dá prazer", lembre dos gregos antigos, dos golfinhos e dos pedófilos. Trate de colocar em perspectiva prazeres e realidades de uma maneira que contemple todos os termos dessa equação. Lembre da vaca. E da menina prostituída no calçadão à beira-mar também.

[ a ilustração é um detalhe de uma figura vermelha ática, c. 530-430 A.C., acervo do Ashmolean Museum, University of Oxford; para saber mais sobre práticas homossexuais gregas, leia A homossexualidade na Grécia antiga, de K. J. Dover, editado pela Nova Alexandria ]