Este é um blog sobre direitos animais e veganismo, abordados a partir da experiência de quem não sabia quase nada a respeito até o dia em que.

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

O prazer da carne

Está na Wikipédia: "Na psicanálise de Sigmund Freud, o princípio de prazer é o desejo de gratificação imediata. Tal desejo conduz o indivíduo a buscar o prazer e evitar a dor. O princípio de prazer opõe-se ao princípio de realidade, o qual caracteriza-se pelo adiamento da gratificação. Faz parte do amadurecimento normal do indivíduo aprender a suportar a dor e adiar a gratificação. Ao fazer isso o indivíduo passa a reger-se menos pelo princípio de prazer e mais pelo princípio de realidade."

Com Freud abrindo o post, não há como não acabar falando em sexo: puro sexo instintivo, bem básico, bem natural, descomplicado e gostosamente burro, sexo selvagem, sexo como princípio-de-tudo e onde tudo-é-permitido.

Mas isso existe?

Eu não conheço, e duvido que você conheça. Tem assim de vez em quando uns fiapos, uns ecos distantes de alguma coisa antiga, ancestral, uma pulsação nos conectando diretamente com o primeiro hominídeo bípede, ou mesmo com nosso primeiro parente sexuado. Mas isso são resquícios, ilhotas primitivas que afloram num oceano de conceituações e, inevitavelmente, problematizações. Veja só, logo o sexo, o prazer mais fundamental, tão sujeito a complicações. O básico dos básicos vira arena para todo tipo de questionamentos, hierarquias, legislações e, claro, moralidades.

Aí eu pergunto: o que você acha da prostituição infantil no litoral nordestino? Antes de fechar a questão com uma exclamação indignada, pense bem no atrativo turístico desse mercado, nas divisas em dólar e euro deixadas no comércio local, no sustento dos empregos nas companhias de aviação, agências de viagem, restaurantes, etc., etc., etc. Pense também no prazer indubitável do gringo americano ou europeu alucinado pela brasileirinha de 12 anos: como, afinal, condená-lo?

Hein? Tô falando em pedofilia? Tô defendendo a pedofilia?

Defendendo, não, mas falando, sim. A palvra vem do grego paidophilia, uma junção de "criança" e "amizade" (nesse caso, atração por). Os mesmos gregos antigos que, ao contrário da crença generalizada, não eram a favor da homossexualidade entre parceiros da mesma faixa etária, mas tinham, isso sim, em grande conta pedagógica a convivência homoerótica masculina entre um adulto (erastes) e um menino pré-púbere (eromenos). Altamente hierarquizada e protocolar, a relação entre o rapazinho e seu amigo adulto os mantinha ligados até que o buço surgisse naquele, quando as primeiras manifestações do corpo de homem faziam com que ele deixasse de ser desejável aos olhos do mais velho. Mas antes disso, muita conversa, jogos, educação política e filosófica e, last but not least, coito intercrural, que ninguém é de ferro. Com a chegada da barba, era a vez do eromenos se transformar em erastes e buscar para si um jovenzinho atraente. Era assim entre os cidadãos livres: o erastes obtinha gratificação erótica na beleza e juventude florescente do eromenos, para quem era uma honra despertar o interesse do homem mais velho, significando a garantia da educação mais completa que se podia ter então.
O incrível é que os gregos forneceram a base sobre a qual os romanos construíram, entre tantas coisas, a sua legislação, a noção de justiça e legalidade da qual somos herdeiros diretos, e que usamos hoje para colocar atrás das grades qualquer adulto que se atreva a ter contato sexual com menores. Os gregos também nos legaram os fundamentos da medicina ocidental, e hoje a pedofilia é item do CID (Catálogo Internacional de Doenças, da Organização Mundial de Saúde). É provável que Platão se escandalizasse ao ver o turista assediando a menina no calçadão da praia, mas certamente devido ao fato de se tratar de uma menina. Fosse um moleque, à chegada da polícia e diante da cena do gringo algemado, Platão diria em bom dialeto ático: "Ué, gente, o que é que tem de mais?"

Mas este mundo dá voltas, não?

Falando a partir do ponto de vista do sujeito ativo da ação, pessoalmente não tenho a menor atração por coisas e pessoas infantis, mas mesmo assim devo entender que um homem adulto pode se sentir internamente justificado a ponto de cruzar o oceano e se arriscar a ser preso, pouco importando se damos ou não a isso o nome de doença e crime. É o princípio de prazer gritando dentro dele, e o erro fundamental aqui é ter nascido na época e/ou sociedade errada. Outro tempo e outro lugar, crime e doença desapareceriam como que por encanto, e nem precisava ser na Grécia clássica: pouco mais de cem anos atrás, um senhor branco fazia o que queria com a menina escrava sob inteira tutela da lei, e longe da esfera da doença (pelo contrário: o defloramento de negrinhas virgens era tido como remédio certeiro contra a sífilis). Agora, lembrando que existe a outra ponta que é vítima dessa ação, eu continuo entendendo que esse homem tem seu desejo, mas no que depender de mim ele não terá a mínima chance de fazer qualquer coisa com qualquer menor de idade. Por maiores que sejam os benefícios colaterais em dólar ou euro, sabemos que a menina tem de estar em outro lugar que não as calçadas da prostituição, e ponto. Isso está baseado no que entendemos hoje por direitos da infância e deveres dos adultos. É o princípio de realidade do nosso aqui e agora.

Pra quem gosta de explicações naturalistas para os comportamentos, aproveito para lembrar que entre os golfinhos, nossos parentes inteligentíssimos e de organização social complexa, é comum que indivíduos adultos se masturbem usando o corpo dos mais jovens. Ahá! Quem sabe aqueles gregos sofisticados esfregando os genitais entre as coxas dos meninos não estavam simplesmente dando vazão a um imperativo biológico absolutamente natural?

Não, claro que não. Sexo totalmente burro, de pura corporalidade e isento de conceitualizações já devia ser uma impossibilidade para os pintores de Lascaux, que dirá para os contemporâneos de Platão. Moral da história: os prazeres que buscamos permanentemente nas ações da nossa vida diária nunca são assim tão simples, muito menos naturais e justificáveis apenas "porque sim". Ainda que de vez em quando alguma ilhota de pura fruição primitiva nos lembre de uma ancestralidade não-conceitual, todo o resto é negociação permanente entre os princípios de prazer e realidade, como nos ensina Freud.
Então, da próxima vez que em resposta à evidência do abatedouro você justificar o bife no prato simplesmente "porque dá prazer", lembre dos gregos antigos, dos golfinhos e dos pedófilos. Trate de colocar em perspectiva prazeres e realidades de uma maneira que contemple todos os termos dessa equação. Lembre da vaca. E da menina prostituída no calçadão à beira-mar também.

[ a ilustração é um detalhe de uma figura vermelha ática, c. 530-430 A.C., acervo do Ashmolean Museum, University of Oxford; para saber mais sobre práticas homossexuais gregas, leia A homossexualidade na Grécia antiga, de K. J. Dover, editado pela Nova Alexandria ]

4 comentários:

Mônica disse...

Oi, Cleber

Achei seu blog através do Google, numa pesquisa sobre vegano.
Gostei muito do que li - temas, abordagens, estilo... parabéns!!

Assisti Earthlings nesta última segunda-feira e tb me abriu os olhos. Até então, era uma ovo-lacto "meia-boca"...

Voltarei sempre p/conferir as novidades!

Um abraço,
Mônica

Cleber disse...

Obrigadíssimo, Mônica, pelas palavras e pela visita!
Earthlings é realmente uma pedrada, né? Aliás, a melhor pedrada que já tomei na vida...
Volte sempre, e um abração!

Osark disse...

Achei mto boa a comparação final...
pra quem tem uma certa noção de direitos dos animais.
Porém a maioria da sociedade, não só no Brasil, nem se importa com os direitos daquelas crianças pobres que se prostituem de noite para almoçarem no outro dia, se importaria entao com a Vaquinha Mimosa que virou bife, sendo que a maioria da sociedade hoje ainda é onivora?

Anônimo disse...

Você já ouviu falar sobre o XV Congresso Mundial de Sexologia, ocorrido em Hong Kong (CHINA)? Nela, a Assembléia Geral da WAS - World Association for Sexology) aprovou as emendas para a Declaração de Direitos Sexuais, decidida em Valência, no XIII Congresso Mundial de Sexologia, em 1997. Ficou bastante claro que as crianças também têm direitos sexuais, pois são seres humanos e não nasceram sem sexo. E a sociedade êm negado veementemente essa busca de prazer por parte das crianças. É concenso entre os especialistas que crianças já a partir dos seis meses (não seis anos) sentem orgasmo. Crianças maiores de quatro anos podem ter até ter orgasmos múltiplos. O que dirá uma criança de sete ou nove anos. Essas podem sentir sete orgasmos em uma hora! As crianças são ávidas por carícias e jogos eróticos. Crianças se masturbam para que? Para buscar prazer. Ponto final. Porque uma menina de sete anos se deixa acariciar por um homem adulto pelo qual ela se atraiu? Prazer. Meninas adoram ser observadas pelos rapazes, saber que são atrativas. Estamos negando às crianças uma vivência corporal única. Porque você acha que crianças filhas de pais naturistas, humanistas e ateus ou agnósticos, são as mais felizes do mundo? Porque, nesses grupos, não lhes é negado o que é inerente, natural, saudável e bom. Não sou pedófilo, também, mas o problema não está na pedofilia em si, mas no abuso sexual. Nem todo pedófilo é um abusador sexual e nem todo abusador sexual é um pedófilo. Nao aprovo o abuso sexual propriamente dito, real e factual. Abuso é abuso, carinho é carinho, prazer é prazer. Deixem as crianças viverem sua sexualidade em paz. Deixem elas fazerem suas escolhas. Quem somos nós para definir idade de consentimento? O corpo é da criança. O prazer é um direito dela. Ela é que sabe o que sente, não os moralistas.