Este é um blog sobre direitos animais e veganismo, abordados a partir da experiência de quem não sabia quase nada a respeito até o dia em que.

sábado, 20 de outubro de 2007

Palavras de centauro

Medéia, filme de Pier Paolo Pasolini de 1969, fala da sobrevivência de aspectos bárbaros no mundo civilizado, e as conseqüentes tensões disso. Pasolini afirmava que "barbárie" era a palavra que mais amava, e o sentido aqui para o termo é o da percepção mágica da natureza, primitiva e pré-civilizada, em contraposição ao pragmatismo burguês da sociedade de consumo. Sobre o filme, diz:

"Medéia é a confrontação do universo arcaico, hierático, clerical com o mundo de Jasão, mundo ao contrário racional e pragmático. Jasão é o herói atual (a mens momentanea) que não somente perdeu o sentido metafísico como nem mais se coloca questões dessa ordem. É o 'técnico' abúlico, cuja procura é unicamente dirigida para o sucesso."

Há duas seqüências primorosas em que o sábio Quíron (no mito original e na peça de Eurípedes, mas apenas "o centauro" no filme) fala sobre o passado pré-civilizado e a herança deixada por ele. Na primeira, enquanto Jasão cresce sob a proteção do centauro, este lhe diz:

— Tudo é santo, tudo é santo, tudo é santo. Não há nada de natural na natureza, meu rapaz. Guarde isto na memória: quando a natureza parecer natural a você, tudo terá acabado, e começará uma outra coisa.

Jasão se torna adulto e deve retomar o reino que foi usurpado de seu pai por seu tio, mas para isso este lhe impõe o cumprimento de algumas tarefas, entre as quais recuperar o velocino de ouro. Na busca pelo velocino numa terra bárbara e distante encontra Medéia, que, além de ajudá-lo na tarefa, deixa seu mundo pré-civilizado por amor a ele. Os dois ficam juntos e seguem para Corinto, mas a certa altura ele está prestes a abandoná-la para ficar com Gláucia, filha do rei, Creonte. Nesse momento reencontra o centauro, e o diálogo dessa segunda seqüência é:

— Jasão!
— Como veio parar aqui? Como veio parar aqui?
— Voce quer dizer como viemos parar aqui.

Na verdade o centauro se apresenta duplicado, na sua forma original (meio homem, meio cavalo) e na forma humana, civilizada. Ao perceber isso, Jasão diz:

— Mas é uma visão!

Ao que o centauro humanizado responde:

— Se for, é você que a está produzindo. De fato, nós dois estamos dentro de você.
— Mas eu conheci um só centauro.
— Não, você conheceu dois: um sagrado, quando você era criança, e um profano, quando você se tornou adulto. Mas tudo que é sagrado permanece junto à sua nova forma profana. E aqui estamos nós, um ao lado do outro.
— Mas qual é a função do velho centauro, aquele que conheci quando menino e que você, novo centauro – se bem compreendi – substituiu não fazendo-o desaparecer, mas tomando o lugar dele?
— Ele, naturalmente, não fala, porque a sua lógica é tão diferente da nossa que não se poderia entender. Mas eu posso falar por ele. É sob o signo dele que você, para além de seus cálculos e de sua interpretação, na verdade ama Medéia.
— Eu amo Medéia...?
— Sim. E não tem piedade dela, que compreende sua catástrofe espiritual, sua desorientação de mulher antiga num mundo que ignora tudo aquilo em que ela sempre acreditou. A pobrezinha passou por uma conversão ao contrário, e nunca mais foi como antes.
— E de que me serve saber disso tudo?
— De nada. É a realidade.
— E você, por que razão me diz isso?
— Porque nada poderia impedir ao velho centauro de inspirar sentimentos. E a mim, novo centauro, de expressá-los.

Apesar de perturbado pelo encontro, Jasão dá seguimento a seus planos de casar com a filha do rei e a tragédia se consuma. Medéia em fúria causa a morte de Gláucia, de Creonte e dos dois filhos que tivera com Jasão.

Pasolini já falava nessa época do ritmo acelerado com que o Terceiro Mundo (e o que havia sobrado de "camponês" na Europa) se encaminhava para o neocapitalismo. Havia chegado a era do triunfo da lógica do consumo e do bem-estar, e o decorrente abandono de um sentido de sagrado cuja linguagem não dominamos mais. Um velho centauro para nós agora mudo, mas justaposto a um novo centauro que – felizmente – fala a nossa língua.


[ Medéia foi lançado em DVD no Brasil pela Versátil Home Vídeo, e a imagem que ilustra o post é a cena em que o centauro aparece duplicado a Jasão; a citação em que Pasolini comenta o filme foi retirada da página 119 de As últimas palavras do herege: entrevistas com Jean Duflot, editado pela Brasiliense em 1983 ]

2 comentários:

Gi disse...

Jasão é o mito mais adequado para o signo de Áries.

Adoro Pasolini, foi o tema de minha monografia de fim de curso. Foi ótimo estudá-lo, pena que na época (em 1999) não havia muito material no Brasil. Nunca assisti à Medéia, infelizmente.

Cleber disse...

Gi, boa lembrança do Jasão como Áries (todo herói em algum momento peca em subjetividade, né?); Medéia eu acho que é Escorpião (pura força ctônica).
Acredito que não é um filme muito difícil de se encontrar nas locadoras, vale a pena ir atrás. Só a presença da Maria Callas como Medéia já é encantamento certo.