Este é um blog sobre direitos animais e veganismo, abordados a partir da experiência de quem não sabia quase nada a respeito até o dia em que.

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Para um feliz ano novo

A imagem acima foi retirada de um post do blog Diário Gauche (clique para visualizar melhor). Segue abaixo, na íntegra, um post do blog O Biscoito Fino e a Massa que reproduz as palavras mais bonitas, lúcidas e ponderadas justas* que já vi sobre a questão Israel-Palestina.

Um 2009 mais lúcido, e mais bonito, para todos nós.


Carta aberta de Uri Avnery a Barack Obama

As humildes sugestões que se seguem são baseadas nos meus 70 anos de experiência como combatente de trincheiras, soldado das forças especiais na guerra de 1948, editor-em-chefe de uma revista de notícias, membro do parlamento israelense e um dos fundadores do movimento pela paz:



1) No que se refere à paz israelense-árabe, o Sr. deve agir a partir do primeiro dia.

2) As eleições em Israel acontecerão em fevereiro de 2009. O Sr. pode ter um impacto indireto, mas importante e construtivo já no começo, anunciando sua determinação inequívoca de conseguir paz israelo-palestina, israelo-síria e israelo-pan-árabe em 2009.

3) Infelizmente, todos os seus predecessores desde 1967 jogaram duplamente. Apesar de que falaram sobre paz da boca para fora, e às vezes realizaram gestos de algum esforço pela paz, na prática eles apoiavam nosso governo em seu movimento contrário a esse esforço.
Particularmente, deram aprovação tácita à construção e ao crescimento dos assentamentos colonizadores de Israel nos territórios ocupados da Palestina e da Síria, cada um dos quais é uma mina subterrânea na estrada da paz.

4) Todos os assentamentos colonizadores são ilegais segundo a lei internacional. A distinção, às vezes feita, entre postos “ilegais” e os outros assentamentos colonizadores é pura propaganda feita para mascarar essa simples verdade.

5) Todos os assentamentos colonizadores desde 1967 foram construídos com o objetivo expresso de tornar um estado palestino – e portanto a paz – impossível, ao picotar em faixas o possível projetado Estado Palestino. Praticamente todos os departamentos de governo e o exército têm ajudado, aberta ou secretamente, a construir, consolidar e aumentar os assentamentos, como confirma o relatório preparado para o governo pela advogada Talia Sasson.

6) A estas alturas, o número de colonos na Cisjordânia já chegou a uns 250.000 (além dos 200.000 colonos da Grande Jerusalém, cujo estatuto é um pouco diferente). Eles estão politicamente isolados e são às vezes detestados pela maioria do público israelense, mas desfrutam de apoio significativo nos ministérios de governo e no exército.

7) Nenhum governo israelense ousaria confrontar a força material e política concentrada dos colonos. Esse confronto exigiria uma liderança muito forte e o apoio generoso do Presidente dos Estados Unidos para que tivesse qualquer chance de sucesso.

8) Na ausência de tudo isso, todas as “negociações de paz” são uma farsa. O governo israelense e seus apoiadores nos Estados Unidos já fizeram tudo o que é possível para impedir que as negociações com os palestinos ou com os sírios cheguem a qualquer conclusão, por causa do medo de enfrentar os colonos e seus apoiadores. As atuais negociações de “Annapolis” são tão vazias como as precedentes, com cada lado mantendo o fingimento por interesses politicos próprios.

9) A administração Clinton, e ainda mais a administração Bush, permitiram que o governo israelense mantivesse o fingimento. É, portanto, imperativo que se impeça que os membros dessas administrações desviem a política que terá o Sr. para o Oriente Médio na direção dos velhos canais.

10) É importante que o Sr. comece de novo e diga-o publicamente. Idéias desacreditadas e iniciativas falidas – como a “visão” de Bush, o “mapa do caminho”, Anápolis e coisas do tipo – devem ser lançadas à lata de lixo da história.

11) Para começar de novo, o alvo da política americana deve ser dito clara e sucintamente: atingir uma paz baseada numa solução biestatal dentro de um prazo de tempo (digamos, o fim de 2009).

12) Deve-se assinalar que este objetivo se baseia numa reavaliação do interesse nacional americano, de remover o veneno das relações muçulmano-americanas e árabe-americanas, fortalecer os regimes dedicados à paz, derrotar o terrorismo da Al-Qaeda, terminar as guerras do Iraque e do Afeganistão e atingir uma acomodação viável com o Irã.

13) Os termos da paz israelo-palestina são claros. Já foram cristalizados em milhares de horas de negociações, colóquios, encontros e conversas. São eles:
a) estabelecer-se-á um Estado da Palestina soberano e viável lado a lado com o Estado de Israel.
b) A fronteira entre os dois estados se baseará na linha de armistício de 1967 (a “Linha verde”). Alterações não substanciais poderão ser feitas por concordância mútua numa troca de territórios em base 1: 1.
c) Jerusalém Oriental, incluindo-se o Haram-al-Sharif (o “Monte do Templo”) e todos os bairros árabes servirão como Capital da Palestina. Jerusalém Ocidental, incluindo-se o Muro Ocidental e todos os bairros judeus, servirão como Capital de Israel. Uma autoridade municipal conjunta, baseada na igualdade, poderia se estabelecer por aceitação mútua, para administrar a cidade como uma unidade territorial.
d) Todos os assentamentos colonizadores de Israel – exceto aqueles que possam ser anexados no marco de uma troca consensual – serão esvaziados (veja-se o 15 abaixo)
e) Israel reconhecerá o princípio do direito de retorno dos refugiados. Uma Comissão Conjunta de Verdade e Reconciliação, composta por palestinos, israelesnses e historiadores internacionais estudará os fatos de 1948 e 1967 e determinará quem foi responsável por cada coisa. O refugiado, individualmente, terá a escolha de 1) repatriação para o Estado da Palestina; 2) permanência onde estiver agora, com compensação generosa; 3) retorno e reassentamento em Israel; 4) migração a outro país, com compensação generosa. O número de refugiados que retornarão ao território de Israel será fixado por acordo mútuo, entendendo-se que não se fará nada para materialmente alterar a composição demográfica da população de Israel. As polpuldas verbas necessárias para a implementação desta solução devem ser fornecidas pela comunidade internacional, no interesse da paz planetária. Isto economizaria muito do dinheiro gasto hoje militarmente e a partir de presentes dos EUA.
f) A Cisjordânia, Jerusalém Oriental e a Faixa de Gaza constituirão uma unidade nacional. Um vínculo extra-territorial (estrada, trilho, túnel ou ponte) ligará a Cisjordânia e a Faixa de Gaza.
g) Israel e Síria assinarão um acordo de paz. Israel recuará até a linha de 1967 e todos os assentamentos colonizadores das Colinas de Golã serão desmantelados. A Síria interromperá todas as atividades anti-Israel, conduzidas direta ou vicariamente. Os dois lados estabelecerão relações normais.
h) De acordo com a Iniciativa Saudita de Paz, todos os membros da Liga Árabe reconhecerão Israel, e terão com Israel relações normais. Poder-se-á considerar conversações sobre uma futura União do Oriente Médio, no modelo da União Européia, possivelmente incluindo a Turquia e o Irã.

14) A unidade palestina é essencial. A paz feita só com um naco da população de nada vale. Os Estados Unidos facilitarão a reconciliação palestina e a unificação das estruturas palestinas. Para isso, os EUA terminarão com o seu boicote ao Hamas (que ganhou as últimas eleições), começarão um diálogo político com o movimento e sugerirão que Israel faça o mesmo. Os EUA respeitarão quaisquer resultados de eleições palestinas.

15) O governo dos EUA ajudará o governo de Israel a enfrentar-se com o problema dos assentamentos colonizadores. A partir de agora, os colonos terão um ano para deixar os territórios ocupados e voluntariamente voltar em troca de compensação que lhes permitirá construir seus lares dentro de Israel. Depois disso, todos os assentamentos serão esvaziados, exceto aqueles em quaisquer áreas anexadas a Israel sob o acordo de paz.

16) Eu sugiro ao Sr., como Presidente dos Estados Unidos, que venha a Israel e se dirija ao povo israelense pessoalmente, não só no pódio do parlamento, mas também num comício de massas na Praça Rabin em Tel-Aviv. O Presidente Anwar Sadat, do Egito, veio a Israel em 1977 e, ao se dirigir ao povo de Israel diretamente, mudou em tudo a atitude deles em relação à paz com o Egito. No momento, a maioria dos israelenses se sente insegura, incerta e temerosa de qualquer iniciativa ousada de paz, em parte graças a uma desconfiança de qualquer coisa que venha do lado árabe. A intervenção do Sr., neste momento crítico, poderia, literalmente, fazer milagres, ao criar a base psicológica para a paz.

(esta é uma carta aberta escrita por Uri Avnery, 85 anos, ex-deputado do Knesset, soldado que ajudou a fundar Israel em 1948 e que há décadas milita pela paz. A tradução ao português é de Idelber Avelar. O obrigado pelo envio do link vai ao Daniel do Amálgama. O pedido de divulgação vai a todos os que desejam uma paz duradoura, nos termos já reconhecidos pela comunidade internacional).




[ * Ao ler o post no Biscoito Fino sobre o glossário macabro, me dei conta imediatamente da armadilha em que havia entrado com minhas próprias pernas: "ponderação" é péssima palavra aqui. Quis realçar a diferença de Avnery em relação a grande parte de seus compatriotas, mas com isso incorri no erro grave de colocar, ainda que indiretamente, racismo (para dizer o mínimo) como sendo "falta de ponderação". Um cidadão israelense que enxergue o Outro palestino não está sendo ponderado, está apenas sendo justo, correto, íntegro, ético. Mea culpa total. ]

sábado, 8 de novembro de 2008

Gary Francione em português


O site da Ánima, organização argentina pelos direitos animais, agora tem um espaço exclusivamente dedicado a reproduzir os artigos, entrevistas e textos do blog de Gary Francione em português (acesso direto aqui).


Essa é uma excelente notícia, e a iniciativa é merecedora dos maiores elogios. Dê uma conferida e divulgue.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

A outra encruzilhada

Do site do GAE vem a notícia da aprovação do projeto de lei complementar, na Câmara Munipal de Porto Alegre, que "desclassifica como ato lesivo, no Código Municipal de Limpeza Urbana, a deposição em locais públicos de animais mortos, normalmente utilizados em cultos e liturgias de religiões afros". Prossegue a nota:

"Em abril, uma lei que estabelecia multa para quem deixasse restos de animais mortos em vias, rios, arroios e riachos havia sido sancionada e acabou se criando uma polêmica entre religiões.
À época, o texto apresentado pelo vereador Almerindo Filho (PTB), pastor da Igreja Universal do Reino de Deus, e sancionado pelo então prefeito interino, Eliseu Santos (PTB), ligado à Assembléia de Deus, indicava multa de até R$ 330. Sentindo-se vítimas de preconceito, seguidores de religiões afrobrasileiras protestaram.
Apesar de a norma não fazer referência direta a manifestações de credo, eles afirmaram que a legislação atingia em cheio práticas religiosas afro. É comum, em despachos, deixar restos de animais, como galinha, após oferendas para orixás realizadas nas encruzilhadas.
Autor do projeto, o vereador Guilherme Barbosa (PT) disse que era necessário corrigir o erro trazido pela lei complementar, pois teria causado conseqüências negativas a atividades religiosas que utilizam o sacrifício de animais."

A votação do projeto contou com 20 votos a favor e 6 contra, e agora aguarda a sanção do prefeito.

Essa notícia me chega como um sublinhado na situação vivida nas últimas eleições. Priorizando a questão ambiental e dos direitos animais como filtro na hora em que fui escolher em quem votar para vereador (desde que do PT ou alinhado à esquerda), o cenário oferecido se mostrou francamente desencorajador. Embora pareça paradoxal, a esquerda tende a votar contra os direitos animais, e a direita, a favor. Mas não há paradoxo.

A esquerda, por definição mais sensível ao coletivo e às questões de direitos humanos, não consegue dar um passo além e ampliar as fronteiras da noção de coletividade ou incluir os animais como também sujeitos de direito. A recente votação na cidade pelo fim das carroças é o exemplo mais bem acabado da prática baseada nessa visão de curto alcance: a esquerda votou maciçamente pela continuidade do modelo que, ao pretender proteger o carroceiro, mantém o cavalo condenado à exploração. A extinção das carroças (em oito anos!) foi aprovada, mas por muito pouco, e graças aos partidos de direita. A expectativa pela libertação dos cavalos é inquestionavelmente um fato a ser comemorado, mas fica o desconforto ideológico da aprovação ter se dado nessas circunstâncias.

A direita, por sua vez, pode eventualmente coincidir sua prática política com a defesa dos direitos animais, mas não tem uma gota sequer em seu discurso que contemple de fato esses direitos. Assim como o fim das carroças pode ser desejável apenas em função do ideal do que deva ser uma cidade "desenvolvida" (portanto: cavalos? que cavalos?), a interdição aos despachos nos permite imaginar desde motivações meramente higiênicas até as escancaradamente racistas, e acho que não erraremos muito se deixarmos a imaginação correr solta nesse caso...

O defensor dos direitos animais, seja ele de esquerda ou de direita, continua tendo como tarefa a inclusão dessa pauta no projeto político com o qual se afina. Na política partidária, permanecemos todos sem representação. As convergências, assim, acabam se dando de maneira tão enviezada que estão sempre a um passo de sua própria deslegitimização, e resultam em um desgaste que pode debilitar a luta política pelos direitos animais propriamente dita.

Ah, e sobre os despachos?

Bom, acho que em uma sociedade laica todas as manifestações religiosas devem guardar os limites legais entendendo que estes têm como foro de discussão um ambiente laico. Quanto ao legislativo, é importante lembrar da diferença entre defesa da liberdade de culto e defesa da liturgia do culto. A primeira é obrigação constitucional que diz respeito a todos; a segunda, obviamente, não.

[ a ilustração foi retirada do Codex Magliabechiano (meados do século XVI), e mostra uma cena de sacrifício humano, parte integrante da religião asteca ]

domingo, 10 de agosto de 2008

Perder e encontrar

Ainda no embalo da discussão que aconteceu no Biscoito Fino e a Massa, fiquei com vontade de falar mais sobre um ponto que abordei muito de passagem por lá.

Nos debates sobre direitos animais, boa parte das reações dos que não concordam com essa idéia tem uma coisa em comum que sempre me impressiona bastante: o medo da perda da humanidade. De várias maneiras aparece nas entrelinhas – às vezes explicitamente fora delas – a certeza de que, se olhar para o animal não-humano de outra forma que não a do especismo vigente, o animal humano vai fazer com que o bicho deixe de ser bicho e o homem deixe de ser homem. Tipo a quebra de um encantamento, que devolve todos ao caos. Nesse espaço subitamente tornado confuso pelo rompimento da fronteira tranqüilizadora entre homens e bichos, é o medo então que passa a comandar o leme e a definir o rumo das coisas.
Fico pensando nisso porque a reação apaixonada, que é coisa por si só muito interessante, tem sempre nesse debate um tom de ultraje. E eu gosto muito da força dessa palavra, e acho muito potente a situação de quem se sente ultrajado. Tem algo de quebra, de violação no ato de ultrajar. Embora o momento do ultraje seja de passividade, de perceber e sentir a violação cometida, só os deuses sabem o que pode vir depois disso. Do ultrajado dá para esperar qualquer coisa.
Então, diante de fronteiras que se diluem e parecem levar para o ralo a humanidade do debatedor reativo, o medo e o ultraje surgem como componentes-chave dos argumentos que, a essa altura, provavelmente serão ditos alguns decibéis acima do normal. Ou escritos em caixa-alta.

Me contou a querida Naza, que tem a experiência de colocar o debate sobre direitos animais para seus alunos na universidade, sobre a aluna que reagiu de maneira mais extremada à exibição de Terráqueos e depois se tornou vegana. É um bom exemplo de potência (nesse caso, transformadora) advinda da situação de ultraje. A mesma mobilização que dá energia para elevar os decibéis também serve de combustível para detonar um processo de reflexão onde não caberá mais o medo da fronteira explodida, do ralo engolidor de humanidade.

Como se isso tudo já não fosse bonito o suficiente, para mim o que há de mais bacana é o que se segue. Parecido com a transição entre as distintas realidades do sono e da vigília, o momento de encarar sem medo a possibilidade da própria humanidade escoar pelo ralo nebuloso é o momento mesmo de redescobrir essa humanidade. Ela não só continua lá, intacta, mas além disso agora se encontra também fortalecida e revigorada pelo processo todo. Afinal quem passou pelo medo, o ultraje, a raiva e a reflexão não foi nada e nem ninguém senão o próprio homem. É assim que a assombração da perda se desvanece sem o estardalhaço com que começou. Esse é o ponto em que toda histeria cessa. A vida pode finalmente começar a se desenhar em outros termos, pois agora há um autor que acaba de se reencontrar.

Então sigo interessado e impressionado conforme as experiências confirmam: o debate inflamado nem sempre é vazio. Às vezes uma contra-argumentação raivosa é apenas destrutiva, mas, ironicamente, há brechas para uma reflexão mais ponderada que só conseguem ser abertas pela força da raiva. Um paradoxo. Tipicamente humano.

[ a cena que ilustra o post mostra a personagem-título de Medéia, interpretada por Maria Callas no filme de Pasolini sobre o qual já falei aqui. Medéia é o exemplo-mor do que um ultraje é capaz de causar. Jasão que o diga. ]

sábado, 9 de agosto de 2008

Discussão no Biscoito

No meu blog favorito, O Biscoito Fino e a Massa, o grande Idelber Avelar postou anteontem sobre um recente atentado a bomba à casa de um professor norte-americano que trabalha com pesquisa fazendo uso de ratos. O título é "Ecoterrorismo e fundamentalismo natureba", e as considerações que acompanham a notícia do fato geraram uma discussão que passou dos cem comentários. Não relato aqui especificamente sobre esses comentários porque já expressei minha opinião lá mesmo, mas a coisa toda é bastante exemplar sobre como costuma transcorrer tipicamente um debate desses. Os argumentos e contra-argumentos, mesmo os piores, são muito vívidos, e a sua concretude (para bem ou para mal) é berrantemente reveladora do ponto em que estamos todos sobre essa questão. Vale a pena dar uma conferida.

segunda-feira, 14 de julho de 2008

"Exigimos a saída de Gilmar Mendes do STF"

É a petição on-line que você pode assinar aqui.
Não é preciso dizer mais nada, né?

terça-feira, 8 de julho de 2008

Mas será o Benedito?

O senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG) é relator de um parecer que examina um projeto de lei da Câmara e dois projetos do Senado que tratam dos crimes de informática. O parecer do senador Azeredo, já aprovado na Comissão de Constituição e Justiça do Senado, após alterações aos projetos originais, emendas, substitutivos, etc., etc., resultou num conjunto de medidas que acabam com a liberdade no uso da Internet pelos brasileiros, com regulamentações que chegam ao ridículo (leia aqui).

André Lemos (Prof. Associado da Faculdade de Comunicação da UFBA, Pesquisador 1 do CNPq) e Sérgio Amadeu da Silveira (Professor Titular Faculdade Cásper Líbero, ativista do software livre – blog aqui) escreveram uma petição em reação a esse absurdo que você pode ler e assinar aqui.

Eu já assinei.

domingo, 6 de julho de 2008

Louis Theroux, mezzo roto, mezzo esfarrapado

Assisti na última sexta-feira a um programa de Louis Theroux no GNT sobre caçadores e caçadas na África do Sul (Louis Theroux's African Hunting Holiday, 2008). Louis Theroux é um jornalista da BBC2 que faz imersões muito contundentes naquilo que ele próprio chama de "subculturas". Misturando os papéis de observador e participante dos rituais específicos de cada universo investigado, ele já mostrou a indústria pornográfica, os infomercials e o televangelismo, por exemplo. Eu sempre gostei de assistir. Vi a chamada uns dias antes e fiquei ligado e acabei esquecendo, mas na sexta-feira peguei o programa do início por pura sorte, enquanto zapeava atrás de alguma coisa interessante. Chamei o Felipe e ficamos os dois esperando para ver o que resultaria dessa imersão específica.

Sinopse: Louis Theroux vai à África do Sul, mais especificamente a fazendas de caça, onde acompanha os proprietários que criam animais selvagens e os turistas que estão ali para caçá-los, pagando a aventura de acordo com o animal abatido. Um porco-do-mato custa cerca de 250 dólares a cabeça, enquanto que animais maiores e mais raros, como o rinoceronte, podem chegar a 70 mil dólares americanos ou mais.

Alguns dados: essas fazendas costumavam ser locais ou de criação de gado ou de plantação. Diante da demanda cada vez maior, especialmente de norte-americanos, os proprietários migraram para a exploração da caça "selvagem". Reconstituíram o ambiente de savana e passaram a criar babuínos, gnus, girafas, zebras, leões e outras espécies com a finalidade específica de serem abatidas por caçadores ansiosos para levar um "troféu" para casa. Pense bem: quem não adoraria ter uma cabeça de rinoceronte ornamentando a parede da sala de estar?

Mais dados: um criador de leões mostra como os seus animais são bonitos, bem criados e sem cicatrizes, ao passo que numa caça convencional você levaria para casa a cabeça de um leão provavelmente todo estropiado. Vamos combinar, não há decoração que resista, né? Outra questão é o aproveitamento do tempo. Você poderia ficar uns três meses no Zimbábue, por exemplo, até conseguir caçar um animal que valesse a pena. Numa fazenda sul-africana, você pode matar cinco ou seis em um só dia, a tiro ou flechada. Uau.

Há tanto o que falar sobre isso tudo. O ambiente controlado. A vida como parque temático. A busca ensandecida por the real thing na exata medida em que é a confissão da perda da capacidade de conexão com qualquer coisa que possa, mesmo de longe, ser chamada de real. Enfim.

Mas vamos ficar com Louis Theroux e o programa em si. Que abre com um sujeito, dono de uma dessas fazendas, acompanhando a filha, uma loirinha fofa de seis ou sete anos, abatendo o seu primeiro troféu: um porco-do-mato que pastava desavisada e tranqüilamente a alguns poucos metros do abrigo-disfarce de onde a menina disparou, com precisão, mirando no tronco logo atrás da pata dianteira. Pulmão e coração atingidos, o pai congratula a menina diante do corpo morto e ensangüentado: "Belo tiro!"
É esse mesmo sujeito que, lá pela metade do programa, avisa a Louis Theroux sobre a inconsistência do seu choque a respeito dos animais que estão ali "apenas para serem mortos" diante da crueldade maior de qualquer abatedouro no manejo e morte da vaca cotidiana. Ele está certo, é claro, mas ao invés disso abrir uma brecha sobre o bife aparentemente inquestionável, acaba por pavimentar a estrada de Louis Theroux rumo à experiência de se tornar, ele próprio, um caçador. A conexão com aquele "eu interior" que não passa, você sabe, de um assassino tanto naturalizado quanto ancestral. (Ninguém lembra que os nossos ancestrais de verdade contavam com pouco mais do que as próprias mãos para caçar e que fazendas "cace-e-pague" são invenção recentíssima, mas quem se importa?)

Assim Louis Theroux se vê dentro de um abrigo, empunhando uma besta munida de mira telescópica, prestes a apertar o gatilho e matar o seu primeiro porco-do-mato. Tal e qual a menina de seis ou sete anos. A besta chega a ser armada, mas na hora H o repórter diz ao seu acompanhante caçador: "Não posso. Eu não tenho vontade de matar." O acompanhante o consola lembrando que está tudo bem, pois alguns de nós são caçadores, outros, não.

Ah, bom.

O programa termina com Louis Theroux, frouxamente, dizendo que come o bife, mas não consegue caçar. A pergunta óbvia (e que não é feita) seria "Por que isso acontece?", só que o esboço de reflexão logo se perde diante da menção ao fato "paradoxal" de um criador que praticamente "salvou" uma espécie da extinção ao criá-la extensivamente para a caça em fazendas... O falso paradoxo resume o tom do programa, cujos pontos levantados parece que sim, mas nunca chegam de fato a desafiar a noção dos animais como objetos. Tudo parte do fato de como esses objetos são tratados. A morte certeira e limpa numa fazenda de caça é mais honesta do que a morte torturante num abatedouro? É isso? É essa a questão?

Não: a questão é outra, e diz respeito à possibilidade, sempre presente e sistematicamente recusada, de simplesmente não matar, não abusar, não pretender possuir.

[ a imagem que ilustra o post foi retirada da página da BBC News com informações sobre o programa, que você acessa aqui ]

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Projeto Floresta Zero

O projeto de lei 6424/2005, originalmente de autoria do senador Flexa Ribeiro (PSDB-PA) e posteriomente modificado pela Comissão de Agricultura do Congresso, altera o Código Florestal brasileiro, autorizando a derrubada de até 50% de floresta nativa nas propriedades privadas na Amazônia. A legislação atual prevê um limite máximo de 20%. Além de ampliar a permissão para acabar com o que ainda está de pé, o projeto cancela multas de autuações ambientais ocorridas antes da publicação da lei, legalizando praticamente todos os desmatamentos dos últimos 40 anos na região, o que dá em torno de 700 mil quilômetros quadrados de floresta. Não tem idéia do tamanho disso? É quase a área equivalente a três estados de São Paulo. Como se não bastasse, ainda permite que a "recuperação" de áreas degradadas se dê pelo plantio de espécies exóticas ou em outras áreas. É isso mesmo: você derruba floresta nativa e compensa plantando cacau, dendê, teca ou eucalipto (todos exploráveis economicamente, é claro). Melhor ainda, não precisa fazê-lo exatamente na área degradada: se "não der" para replantar ali mesmo (segundo os critérios do órgão ambiental estadual), pode ser em outra microbacia ou bacia hidrográfica do estado.

As modificações que tornaram o que já era espantoso em absolutamente inacreditável ocorreram depois que o relator do projeto de lei na Comissão de Agricultura e Pecuária, deputado Homero Pereira (PR-MT) — que já foi presidente da associação de produtores de soja do Mato Grosso — acatou as emendas favoráveis aos ruralistas e rejeitou as emendas propostas pelo Ministério do Meio Ambiente. Seu relatório foi votado e aprovado em 19 de dezembro de 2007 por 24 votos a 1.

Essa gracinha agora tramita na Câmara dos Deputados pelas mãos zelosas da bancada ruralista, que fica lá, costurando seus apoios na surdina, torcendo para que tudo ocorra na maior invisibilidade. Atualmente o projeto de lei aguarda votação na Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, com relatoria do deputado Jorge Khoury (DEM-BA), e depois deve seguir para a Comissão de Constituição e Justiça antes de retornar ao Senado para análise das modificações efetuadas pela Câmara.

Enquanto isso...

O Greenpeace, juntamente com outras entidades, lançou a campanha cujo logo ilustra este post e que está levantando um abaixo-assinado para que os cidadãos se manifestem contrariamente a esse absurdo.

Para assinar, clique aqui.


[ o texto do relatório da aprovado pela Comissão de Agricultura está disponível em pdf aqui ]

sábado, 12 de abril de 2008

Explícito implícito

Descobri outro dia no site de Gary Francione que estão disponíveis versões em português dos vídeos dele. Na realidade são slides de texto e imagem em forma de vídeo. O primeiro, Teoria dos direitos animais, dá uma geral e introduz o assunto. Não há sequer trilha sonora e as imagens são poucas, e me chamou a atenção a falta de imagens "chocantes". Há cenas de animais mortos ou feridos, mas uma foto de jornal ilustrando alguma matéria sobre produção pecuária corre o risco de ser mais perturbadora. Gostei. Imediatamente me deu vontade de apresentar o vídeo pra todo mundo. Hoje enviei um e-mail para os amigos queridos dando o link até o vídeo e explicando do que se tratava, e explicitamente avisando de que ninguém seria submetido a um "show de horrores" caso se dispusesse a assistir. Quer dizer: eu sou absolutamente a favor do show de horrores. Assisti a Terráqueos e sei o quanto a crueza de todas aquelas cenas ajudou na minha mobilização imediata com o assunto (mas falo sobre isso em seguida). E acho importante salientar que qualquer diferença dessa natureza na abordagem do tema há de se dar num nível bastante superficial. Uma imagem ou duzentos e cinqüenta? Com ou sem sangue? Isso tudo é irrelevante uma vez que se tenha realmente começado a enfrentar a questão, mas, antes que esse momento aconteça, a abordagem "menos chocante" dos direitos animais me parece uma boa alternativa para alcançar aquelas pessoas que sabem o tanto de horror que está necessariamente implicado nesse tema. As pessoas que, exatamente por causa disso, não querem mais saber. Ou saber "mais" do que já sabem. O dado explícito e chocante das imagens (ou da descrição textual pormenorizada) acaba servindo de justificativa para o afastamento total do debate, e falo aqui principalmente do debate consigo mesmo. É a hora de dar stop no player, a hora de fechar o livro, a hora de amassar o panfleto. "Vamos mudar de assunto?" Uma pena, pois quando alguém se recusa a pensar sobre isso nesses termos está se recusando a debater o assunto de qualquer maneira, pois não há como alienar esses termos da discussão. Seria mais ou menos como tentar discutir o Holocausto sem passar pelo terror dos campos de concentração, ou debater os problemas por que passa a população afro-descendente do Brasil deixando de lado tudo o que aconteceu antes de 13 de maio de 1888.
"Quem precisa saber das condições enfrentadas nos navios negreiros, por exemplo? Vamos mudar de assunto?"

Não. Nossa consciência nos diz: precisamos de todo detalhe sobre os navios negreiros e as senzalas, toda descrição macabra sobre os guetos e os campos. A fatura desse enfrentamento deve ser debitada na conta de todos nós. Esse assunto é nosso, gostemos ou não. Por isso me sinto bastante afortunado pela oportunidade de ter assistido a Terráqueos. Por ter sido confrontado com o que é também da minha conta. Foi importante ter conseguido não desviar o olho uma vez sequer, e eu quis fazer isso várias vezes. O dedo coçava pra apertar o stop no controle remoto. Mas tratei de agüentar no osso, porque aquilo me dizia respeito. Não olhar para aquelas cenas seria proceder a mais uma violência contra as vítimas que aparecem no filme. Ignorar seu sofrimento seria matá-las uma vez mais. Por fim ficou claro que meu estômago embrulhado, minha culpa, meu horror não eram nada, rigorosamente n-a-d-a diante do que cada um daqueles seres passou. Num jogo de forças em que trezentas emoções conflitantes brigam dentro de você, o que acabou prevalecendo foi um sentimento básico de acatar a responsabilidade por aquelas cenas, e esse foi o ponto exato que detonou toda a transformação posterior.

Aí, pra colocar a imagem no post anterior a este fui obrigado a rever o filme justamente na parte em que eu mais quis fugir dele. A pior cena, a mais terrível pra mim. Tanto, que não conseguia sequer falar sobre ela. Eu só conseguia dizer "tem uma parte...". Fiquei assim por semanas, meses até. Que nada: um ano e quatro meses. Só consegui verbalizar a frase "a cena da raposa" quando comentei com o Felipe sobre a ilustração que iria colocar no post. Como para ele tudo ocorreu de maneira muito parecida, até então éramos dois imbecis falando sobre esse momento particular do filme:

— É que naquela hora.
— Pois é.
— Não dá nem pra falar, né?
— É.
— Pois é.

O blog não tem como característica o uso dessas imagens terríveis. Mas no último post eu achei que precisava colocar a raposa. E tive de ir buscá-la no filme. Pra achar um frame adequado, revi e revi a cena que tanto me doera. Doeu de novo, é claro, mas dessa vez percebi uma relação diferente com a dor, e que agora me parece difícil colocar em palavras. Um outro entendimento, talvez, a partir da sensação de que, num mundo especista e cheio de contradições a respeito, o enfrentamento dessa dor não é apenas previsível. Ele é, realmente, necessário.

[ para ir direto aos vídeos no site de Gary Francione, clique aqui (e veja se você não fica com vontade de também mandar o link para os seus amigos...); a ilustração do post foi retirada da cena menos explícita de A lista de Schindler, filme de Steven Spielberg de 1993 ]