Este é um blog sobre direitos animais e veganismo, abordados a partir da experiência de quem não sabia quase nada a respeito até o dia em que.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Da natureza não natural

Já comentei num post anterior a respeito das considerações de Pasolini sobre Jasão, no seu filme Medeia, em que o cineasta salienta a trajetória do personagem como a passagem da percepção mágica da natureza (e do mundo) para uma abordagem pragmática. Uma trajetória que é a da mentalidade ocidental. A civilização mesma como processo de afastamento do mágico, e isso é um pouco mais do que a simples tentativa de racionalização do mágico. Nossa história civilizatória tem sido a da alienação dos aspectos sagrados, inalcançáveis e autodeterminados daquilo que, quanto mais alienado, mais passa a parecer como realidade externa e independente, a Natureza em si. Se foi pela cultura que atribuímos magia à realidade, foi também pela cultura que acabamos atribuindo naturalidade à natureza, e de tal maneira que esta passou a ser considerada a tabula rasa, um mero cenário a partir do qual e sobre o qual atuar, um ajuntamento de dados factuais que constituem a realidade física.

A ideia de um "estado natural" de qualidades neutras, preexistente e pré-cultural, sobre o qual podemos construir nosso pensamento é, de saída, um equívoco. Fora da cultura, a natureza é continuidade, e não recorte observável, nem cenário possível. Dentro da cultura, toda natureza será necessariamente concebida sob limitações culturais.

É incrível que a evocação de uma natureza anterior a toda cultura às vezes seja justamente a arma escolhida para defender expressões da própria cultura. Assim, é lugar-comum, por exemplo, você ouvir argumentos científicos que buscam provar que o homem é naturalmente onívoro (querendo mesmo defender que é carnívoro). E também outros tantos tentando provar o contrário. Aí temos o quadro engraçadíssimo do sujeito que estufa o peito cheio de razão e se prepara para traçar sua picanha, repare bem, uma vez que afirma culturalmente que não come culturalmente, apenas segue a natureza. Para ele, obter nutrientes da carne de vaca é uma bem-vinda condenação biológica. Exibe, convencido, seus caninos como a prova irrefutável disso. A natureza, é claro, não o manda comer ninguém da sua espécie, ou cachorros, ou cobras, ou porquinhos-da-índia. A natureza deixou essa parte para selvagens canibais perdidos nas brumas do tempo e alguns povos exóticos do Oriente ou dos Andes. Numa diferenciação que há de ser evolutiva, valha-nos Darwin, a natureza — e só ela, estamos acertados — adaptou nosso picanheiro a alimentar-se em churrascarias-rodízio. Pretendendo-se alheio a qualquer cultura nessa hora de pulsão alvoroçada de seus genes, ele pergunta, por puro instinto, ao garçom: "Tem javali?"

Pena que nosso amigo esqueceu-se de lembrar que caninos não são necessários quando se come carne de garfo e faca. No seu oposto, talvez encontremos uma gentil criatura vociferando que não podemos em absoluto comer nenhuma carne por causa do comprimento dos nossos intestinos. Sejamos justos: eis aqui um argumento de peso equivalente ao canino de qualquer um. Mas, cá entre nós, acho mesmo que, noves fora, nesse caso os talheres são evidência antropológica do que somos e como agimos muito mais importante do que a conformação dos nossos dentes ou intestinos.

[ na ilustração, garfo e faca da Tramontina, linha "Churrasco – Tradicional", mas que, tenho certeza, você pode usar para comer qualquer outro tipo de coisa, naturalmente ]

4 comentários:

Matheus disse...

Meu muito caro Cleber, parabéns pelo excelente trabalho no blog. Venho acompanhando-o e divulgando-o desde que dele tomei conhecimento. Considero parada obrigatória para todo bom vegano brasileiro.

Indo diretamente ao assunto, gostaria de lhe fazer uma contribuição, que em verdade não é minha, mas do renomado Prof. Jair Barboza, na forma deste artigo: http://www.cfh.ufsc.br/ethic@/et72art09Jair.pdf

O artigo, muito interessante, aponta o filósofo Arthur Schopenhauer como precursor da ética animal. O autor fala com propriedade, sendo ele reconhecidamente o principal tradutor da obra do filósofo no país e um dos maiores especialistas brasileiros na filosofia do alemão. Aqui o seu currículo virtual: http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.jsp?id=K4700734A6

Espero contribuir de alguma forma para o seu trabalho. Em verdade, considere-me um grande fã. Abraço!

Lady N. disse...

Oi Cleber. Seguinte: Você ganhou um prêmio. De mim. Só que eu simplesmente esqueci de avisar no dia. Estou avisando agora. Se quiser ver é só ir ali no meu blog e achar o post.
Ah, sim e devo dizer que sou sua tiete (óh isso é muito adolescente). :p
Abraço

Cleber disse...

Matheus:
Muitíssimo obrigado pelas suas palavras e frequência ao blog! Obrigado também pela indicação do artigo de Barboza, que acabo de ler (gostei muito). Sugestões e contribuições são sempre bem-vindas, então fique à vontade.
Grande abraço!


Lady N.:
Então você escolheu o Vê de vegano pra ficar entre os seus seis blogs eleitos? Puxa, nem sei como dizer o quanto eu gostei disso! Ainda mais vindo de alguém que ama Nina Simone: com essa informação não é preciso falar mais nada ;)
Gracias, muchisimas gracias e um beijo!

Anônimo disse...

Cleber, olá! Estou aqui pela primeira vez (e não será a última) e fiquei encantada com sua crônica. Parabéns!
Espero colaborar para o bem nos comentários que, por ventura, fizer.
Mais uma vez bato palmas a seu blog e crônicas.
Paula Regina