
Nos debates sobre direitos animais, boa parte das reações dos que não concordam com essa idéia tem uma coisa em comum que sempre me impressiona bastante: o medo da perda da humanidade. De várias maneiras aparece nas entrelinhas – às vezes explicitamente fora delas – a certeza de que, se olhar para o animal não-humano de outra forma que não a do especismo vigente, o animal humano vai fazer com que o bicho deixe de ser bicho e o homem deixe de ser homem. Tipo a quebra de um encantamento, que devolve todos ao caos. Nesse espaço subitamente tornado confuso pelo rompimento da fronteira tranqüilizadora entre homens e bichos, é o medo então que passa a comandar o leme e a definir o rumo das coisas.
Fico pensando nisso porque a reação apaixonada, que é coisa por si só muito interessante, tem sempre nesse debate um tom de ultraje. E eu gosto muito da força dessa palavra, e acho muito potente a situação de quem se sente ultrajado. Tem algo de quebra, de violação no ato de ultrajar. Embora o momento do ultraje seja de passividade, de perceber e sentir a violação cometida, só os deuses sabem o que pode vir depois disso. Do ultrajado dá para esperar qualquer coisa.
Então, diante de fronteiras que se diluem e parecem levar para o ralo a humanidade do debatedor reativo, o medo e o ultraje surgem como componentes-chave dos argumentos que, a essa altura, provavelmente serão ditos alguns decibéis acima do normal. Ou escritos em caixa-alta.
Me contou a querida Naza, que tem a experiência de colocar o debate sobre direitos animais para seus alunos na universidade, sobre a aluna que reagiu de maneira mais extremada à exibição de Terráqueos e depois se tornou vegana. É um bom exemplo de potência (nesse caso, transformadora) advinda da situação de ultraje. A mesma mobilização que dá energia para elevar os decibéis também serve de combustível para detonar um processo de reflexão onde não caberá mais o medo da fronteira explodida, do ralo engolidor de humanidade.
Como se isso tudo já não fosse bonito o suficiente, para mim o que há de mais bacana é o que se segue. Parecido com a transição entre as distintas realidades do sono e da vigília, o momento de encarar sem medo a possibilidade da própria humanidade escoar pelo ralo nebuloso é o momento mesmo de redescobrir essa humanidade. Ela não só continua lá, intacta, mas além disso agora se encontra também fortalecida e revigorada pelo processo todo. Afinal quem passou pelo medo, o ultraje, a raiva e a reflexão não foi nada e nem ninguém senão o próprio homem. É assim que a assombração da perda se desvanece sem o estardalhaço com que começou. Esse é o ponto em que toda histeria cessa. A vida pode finalmente começar a se desenhar em outros termos, pois agora há um autor que acaba de se reencontrar.
Então sigo interessado e impressionado conforme as experiências confirmam: o debate inflamado nem sempre é vazio. Às vezes uma contra-argumentação raivosa é apenas destrutiva, mas, ironicamente, há brechas para uma reflexão mais ponderada que só conseguem ser abertas pela força da raiva. Um paradoxo. Tipicamente humano.
[ a cena que ilustra o post mostra a personagem-título de Medéia, interpretada por Maria Callas no filme de Pasolini sobre o qual já falei aqui. Medéia é o exemplo-mor do que um ultraje é capaz de causar. Jasão que o diga. ]