Este é um blog sobre direitos animais e veganismo, abordados a partir da experiência de quem não sabia quase nada a respeito até o dia em que.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

terça-feira, 14 de julho de 2009

Os incríveis

Matéria do Jornal Nacional de ontem celebra o experimento, feito por cientistas americanos, de implante de um chip no cérebro de macacos que conseguiram mover um braço robótico "com a força do pensamento".

Veja aqui a reportagem, cujo tom empolgado com o incrível avanço científico acompanhou a cena compartilhada por milhões de espectadores.

O macaco está imobilizado, sedento, confinado num ambiente artificial, condenado a estar vivo para viver uma vida que não lhe pertence. O macaco é capaz de pensar, e exatamente por essa razão é escolhido e forçado a uma experiência que pouco se importa com o que ele pensa disso. O turbante improvisado que lhe colocaram, para esconder o crânio aberto dos estômagos mais sensíveis, é a cereja do bolo da cena horrorosa.

E então celebramos, pois somos incríveis. Somos realmente incríveis.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Da natureza não natural

Já comentei num post anterior a respeito das considerações de Pasolini sobre Jasão, no seu filme Medeia, em que o cineasta salienta a trajetória do personagem como a passagem da percepção mágica da natureza (e do mundo) para uma abordagem pragmática. Uma trajetória que é a da mentalidade ocidental. A civilização mesma como processo de afastamento do mágico, e isso é um pouco mais do que a simples tentativa de racionalização do mágico. Nossa história civilizatória tem sido a da alienação dos aspectos sagrados, inalcançáveis e autodeterminados daquilo que, quanto mais alienado, mais passa a parecer como realidade externa e independente, a Natureza em si. Se foi pela cultura que atribuímos magia à realidade, foi também pela cultura que acabamos atribuindo naturalidade à natureza, e de tal maneira que esta passou a ser considerada a tabula rasa, um mero cenário a partir do qual e sobre o qual atuar, um ajuntamento de dados factuais que constituem a realidade física.

A ideia de um "estado natural" de qualidades neutras, preexistente e pré-cultural, sobre o qual podemos construir nosso pensamento é, de saída, um equívoco. Fora da cultura, a natureza é continuidade, e não recorte observável, nem cenário possível. Dentro da cultura, toda natureza será necessariamente concebida sob limitações culturais.

É incrível que a evocação de uma natureza anterior a toda cultura às vezes seja justamente a arma escolhida para defender expressões da própria cultura. Assim, é lugar-comum, por exemplo, você ouvir argumentos científicos que buscam provar que o homem é naturalmente onívoro (querendo mesmo defender que é carnívoro). E também outros tantos tentando provar o contrário. Aí temos o quadro engraçadíssimo do sujeito que estufa o peito cheio de razão e se prepara para traçar sua picanha, repare bem, uma vez que afirma culturalmente que não come culturalmente, apenas segue a natureza. Para ele, obter nutrientes da carne de vaca é uma bem-vinda condenação biológica. Exibe, convencido, seus caninos como a prova irrefutável disso. A natureza, é claro, não o manda comer ninguém da sua espécie, ou cachorros, ou cobras, ou porquinhos-da-índia. A natureza deixou essa parte para selvagens canibais perdidos nas brumas do tempo e alguns povos exóticos do Oriente ou dos Andes. Numa diferenciação que há de ser evolutiva, valha-nos Darwin, a natureza — e só ela, estamos acertados — adaptou nosso picanheiro a alimentar-se em churrascarias-rodízio. Pretendendo-se alheio a qualquer cultura nessa hora de pulsão alvoroçada de seus genes, ele pergunta, por puro instinto, ao garçom: "Tem javali?"

Pena que nosso amigo esqueceu-se de lembrar que caninos não são necessários quando se come carne de garfo e faca. No seu oposto, talvez encontremos uma gentil criatura vociferando que não podemos em absoluto comer nenhuma carne por causa do comprimento dos nossos intestinos. Sejamos justos: eis aqui um argumento de peso equivalente ao canino de qualquer um. Mas, cá entre nós, acho mesmo que, noves fora, nesse caso os talheres são evidência antropológica do que somos e como agimos muito mais importante do que a conformação dos nossos dentes ou intestinos.

[ na ilustração, garfo e faca da Tramontina, linha "Churrasco – Tradicional", mas que, tenho certeza, você pode usar para comer qualquer outro tipo de coisa, naturalmente ]

domingo, 18 de janeiro de 2009

Um herói contemporâneo

Assisti incrédulo à matéria do Jornal da Globo do último dia 15 sobre o pouso de emergência do airbus da US Airways no rio Hudson, em Nova Iorque. Siga o link e confira o vídeo: são exatos 6 min 42 s, dos quais os últimos 2 min e quase 20 s são dedicados integralmente a destacar o heroísmo do piloto. Esse tempo foi recheado dos seguintes termos: "competência", "habilidade do profissional", "currículo", "homem ideal", "performance", "alta performance", "empresa", "empreendorismo", entre outros. "Heroico" e "herói" aparecem quatro vezes ao longo da matéria.

Conforme os minutos passavam e o assunto não saía do lugar, fui me sentindo mais e mais deslocado daquilo tudo, da abordagem, da excitação com o fato, do vocabulário utilizado. Com a menção a "currículo" percebi que havia algo realmente fora do tom. William Waack conversava com o correspondente Rodrigo Alvarez e ambos diziam ter consultado o currículo do piloto. Dezenove mil horas de voo. Foi piloto de caças. Foi presidente da Associação dos Pilotos de Linhas Aéreas (ohhhhhhh...). Tem uma empresa especializada em segurança aérea. Enfim, o homem certo na situação certa. E então veio o comentário de que a empresa do piloto, com sede na Califórnia, terra do "empreendorismo", agora iria certamente "bombar".

Hein?

Se a busca da raiz do alegado heroísmo do sujeito no seu currículo já parecera estranha o suficiente, a previsão de sucesso empresarial como decorrência do pouso bem-sucedido coroou de vez o que percebi como uma bizarra manobra: as qualidades do herói foram deslocadas da esfera da moral para a da performance.

Mas agora me diz: o que a palavra "herói" evoca em você?

Aqui cá comigo, as primeiras associações são: "coragem", "risco" e, sobretudo, "sacrifício". Mestre Houaiss me ajuda, acrescentando "tenacidade", "abnegação", "magnanimidade" e "indivíduo [...] que arrisca a vida em benefício de outrem". E, por último, "indivíduo [...] notabilizado por suas realizações/que desperta enorme admiração; ídolo".

Acho que não erro e mesmo faço apenas chover no molhado ao entender a sociedade estadunidense como mais idólatra que a brasileira. O elogio permanente ao indivíduo "que faz" é uma característica bastante evidente por lá, então a associação entre "ídolo" e "herói" é pelo menos previsível em se tratando dos Estados Unidos. E tem também o impacto emocional daquilo que acontece no quintal da sua casa, colorindo adjetivos e mobilizando admirações. Quero dizer que não me espantaria se em vez do Jornal da Globo estivesse assistindo à CNN. Só para comparar, olha o que diz, por exemplo, o Le Monde:

"A foto do piloto, Chesley Sullenberger, de 57 anos, foi divulgada repetidamente nas redes de televisão americanas, e o prefeito de Nova Iorque louvou seu heroísmo e seu profissionalismo. [...] O presidente americano George W. Bush por sua vez louvou 'a habilidade e o heroísmo da tripulação'. Segundo o New York Daily News, que deu a manchete 'Os heróis do Hudson' no seu site, o homem é um veterano da Força Aérea americana."

Ou seja, o jornal reporta a atribuição de heroísmo pela população local, mas não fica endossando essa atribuição. O que me parece muitíssimo mais adequado do que a longa matéria do Jornal da Globo, que nada mais fez a não ser ecoar sem qualquer filtragem a mídia estadunidense, como se o pouso de emergência tivesse ocorrido no Tietê, com Lili Marinho a bordo... Acompanhei com atenção o Jornal Hoje, da mesma Globo, do dia seguinte só pra confirmar idêntica postura editorial. Com nenhum morto e quatro atendimentos hospitalares somente por hipotermia e não pelo pouso em si, foi o "heroísmo competente" do piloto que pautou as duas matérias (aqui e aqui), novamente ultrapassando, juntas, os 6 min. Se é assim com a principal rede de televisão do país, tenho certeza que esse episódio vai virar um "case de sucesso" nas palestras motivacionais sobre administração e gerenciamento por aí. Alguém tem uma máscara de oxigênio extra, por favor?

Devo estar velho, mais chato e ranzinza do que de costume, mas um piloto altamente treinado em situações de emergência que acaba por colocar em prática todo o seu treinamento não me faz levantar as sobrancelhas. O cara foi craque, foi fera, foi braço, sim. É o primeiro pouso de emergência na água em 50 anos sem nenhuma vítima. Que bom que o treinamento, que a especialização do piloto pôde dar conta da situação de alto risco e salvar 155 vidas. Técnica apurada, perícia, sangue frio. Uhu. Mas sou do tempo em que alta performance e currículo adequado não eram os ingredientes básicos daquilo que reconhecemos como heroísmo, então só consigo achar tudo isso muito fora de lugar. Deslocam-se as qualidades do herói, desloco-me para um estado em suspensão, assistindo a tudo sem conseguir acreditar que é essa a língua que está sendo falada. Ando também mais sensível, pois a situação em Gaza é o cenário dos últimos tempos do qual não consigo me afastar, e a partir de onde olho para as coisas cotidianas e só me sobra o espanto ao assistir a bizarrices como as do Jornal da Globo. Que, por sinal, nessa mesma edição dedicou 3 min 1 s à matéria que cobriu o bombardeio israelense às instalações da ONU, de um hospital e dos locais onde trabalhava a imprensa em Gaza. Menos da metade do tempo utilizado para cobrir o pouso forçado no Hudson. E de um jornalismo tão vagabundo que esses 3 min não valem 10 s de informação consistente.


[ a imagem é a estampa da camiseta "Cher Guevara"; só pra constar: apesar de velho, chato e ranzinza, eu morri de rir outro dia quando topei por acaso com ela na Internet ]

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Boicote a Israel

Vários blogs já repercutiram o artigo de Naomi Klein no The Nation, publicado no último dia 7, em que ela defende a ideia de boicote aos produtos israelenses como forma de pressão mundial contra os crimes do Estado de Israel. Ali fiquei sabendo da existência do Global BDS Movement – Boycott, Divestment and Sanctions for Palestine, movimento que desde 2005 congrega várias organizações palestinas na divulgação e defesa de ações de boicote, desinvestimento e sanções contra Israel.

Naomi Klein afirma que Israel precisa tornar-se um alvo da repreensão mundial, a exemplo do que aconteceu com a África do Sul dos tempos do apartheid, e não imagino melhor colocação do que essa no que diz respeito à condenação moral que desejamos expressar como indivíduos que compartilham a mesma indignação. Condenações legais efetivas, via ONU – Corte Internacional de Justiça, parecem ainda um desejo protelado para o dia em que o arranjo de forças mundiais esteja completamente redesenhado. Enquanto isso, podemos nos juntar aos que já estão em plena campanha, boicotando produtos (comerciais, culturais, etc.) israelenses e divulgando essa ideia. Um exemplo tocante vem "de dentro": Klein cita a carta assinada por cerca de 500 cidadãos israelenses judeus (entre os quais dúzias de artistas e acadêmicos conhecidos) e destinada aos embaixadores estrangeiros em Israel, que pede ao mundo que adote imediatamente medidas restritivas e sanções, explicitamente fazendo um paralelo com a luta pelo fim do apartheid sul-africano. Quanto ao boicote comercial, não sei exatamente quais produtos chegam às lojas brasileiras, mas um dado importante é o seguinte: para driblar o boicote, algumas empresas não colocam o made in Israel no que produzem. Um drible que pode ser desarmado, pois todo código de barras inicia pela identificação do país de origem através dos três primeiros algarismos. O código de Israel é 729.

Os veganos estamos tão acostumados a debulhar informações nos rótulos que prestar atenção a mais esse detalhe é moleza. É bom também que você avise ao comerciante que está desistindo do produto tal por causa da origem israelense. Então anote: 729, e passe a informação adiante.

domingo, 11 de janeiro de 2009

As blindagens

Li no RS Urgente sobre o excelente artigo escrito pelo jornalista inglês Robert Fisk para o The Independent, que depois descobri, pelo O Biscoito Fino e a Massa, estar traduzido no blog Amálgama. Recomendo a leitura: Fisk fala das comparações utilizadas como argumento pró-Israel, recorrentes pelo mundo afora e caracteristicamente estúpidas e parciais (do tipo imagine-se como israelense sob foguetes Qassam, mas não ouse imaginar-se como palestino sob o pesado bombardeio de Israel), e termina o texto narrando um debate do qual participou em que o oposto disso, a recusa da possibilidade de comparação, toma as vezes de argumento. Reproduzo abaixo:

"Meu momento preferido aconteceu quando eu disse que jornalistas têm de ter lado, e que o lado dos jornalistas têm de ser o lado dos que mais sofrem. Se me mandassem cobrir o tráfico de escravos no século 18, eu jamais daria destaque, no que escrevesse, à opinião do capitão do navio mercador de escravos. Se me mandassem cobrir a libertação num campo de concentração nazista, eu não entrevistaria o porta-voz da SS. Nesse ponto, um jornalista do Jewish Telegraph em Praga 'argumentou' que 'o exército israelense não é Hitler'. Claro que não. Eu não disse que é."

A atuação historicamente criminosa do Estado de Israel sobre a população palestina suscita merecidamente várias comparações, da África do Sul do apartheid à Alemanha nazista, ainda que Gaza não seja nem Soweto nem o Gueto de Varsóvia. O sofrimento aparece onde surge a agressão, a opressão, a dor, a morte. A constatação da existência do sofrimento deve ser buscada na vítima, e nunca na intenção ou no discurso do agressor. Ou no seu uniforme, na língua que fala, na religião que professa, na sua circunstância histórica. Responder à denúncia da violência através da lógica do agressor é só dar continuidade à agressão cometida. Os partidários da política de ocupação e extermínio do Estado de Israel tratam de desqualificar qualquer comparação com outros agressores históricos pela blindagem dos fatos dentro da sua lógica "nós somos – sempre – apenas as vítimas". Por acaso Barak e Ohlmert são nazistas? Evidente que não: logo, não há lugar para as bombas de fósforo branco se não na categoria "autodefesa". Qualquer outra consideração está de saída condenada a ser ofensiva e vergonhosa prova de antissemitismo. E jamais são trazidos à cena, como se nunca houvessem existido, os cidadãos israelenses judeus que são contra a ação do seu governo (essa brava e tão admirável gente).

Comparações podem e devem ser feitas e esmiuçadas, sem parcialidade e sem blindagem, até que se esgotem por inapropriadas ou se revelem pontos de apoio consistentes para que compreendamos o que ainda não foi compreendido. Mal comparar ou não permitir comparar são as duas faces da mesma moeda de negação dos fatos, que o artigo de Fisk tão bem elucida.

Não há como olhar para qualquer desses massacres deliberados, friamente arquitetados, sem fazer uma comparação com o holocausto diário que os humanos inflingimos aos animais. Olho para Gaza e lembro dos aviários, dos abatedouros, das fazendas de pele, do confinamento das linhas de produção da indústria de exploração animal. Aqui só se ofende com a comparação quem estabelece a diferença entre espécies como a blindagem adequada para escapar dessa discussão. É uma blindagem de fato eficaz, basta olharmos para os números do contador que o blog mantém logo ali acima à esquerda. Eficaz, mas nem por isso livre de buracos de incoerência e inconsistência lógica. Sem hesitação dizemos que os habitantes de Gaza estão "enjaulados como animais", numa comparação óbvia e inquestionável, mas não nos permitimos entender que por sua vez os animais enjaulados sofrem, no mínimo, como sofre hoje a população de Gaza.

Sim, os palestinos de Gaza não são iguais a animais. Mas eu não disse que são.

[ a primeira foto mostra os "alojamentos" no campo nazista de Birkenau; a segunda mostra um aviário. ]

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Todos ao Biscoito!

Já disse aqui que O Biscoito Fino e a Massa é o meu blog favorito, e volto a falar dele para recomendá-lo ainda mais nestes dias terríveis em que a criminalidade do Estado de Israel nos desafia a encontrar as palavras certas para o aparentemente inominável. Mas todo crime tem nome, sim, e Idelber Avelar está fazendo um trabalho extraordinário de opinião, informação e compilação sobre os horrores por que passa a população palestina, fundamental para que atravessemos a barreira espessa criada e mantida, mais ou menos intencionalmente, pela grande imprensa em sua quase totalidade.
A Internet mostra o que tem de melhor em momentos assim, e o Biscoito entra em ação de maneira irretocavelmente admirável. Muitíssimo obrigado, Idelber.

[ O Biscoito Fino e a Massa está concorrendo a melhor blog de política no Best Blogs Brazil 2008, e você pode votar aqui. Eu já votei. (Foto: Gaza, REUTERS/Yannis Behrakis) ]

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Para um feliz ano novo

A imagem acima foi retirada de um post do blog Diário Gauche (clique para visualizar melhor). Segue abaixo, na íntegra, um post do blog O Biscoito Fino e a Massa que reproduz as palavras mais bonitas, lúcidas e ponderadas justas* que já vi sobre a questão Israel-Palestina.

Um 2009 mais lúcido, e mais bonito, para todos nós.


Carta aberta de Uri Avnery a Barack Obama

As humildes sugestões que se seguem são baseadas nos meus 70 anos de experiência como combatente de trincheiras, soldado das forças especiais na guerra de 1948, editor-em-chefe de uma revista de notícias, membro do parlamento israelense e um dos fundadores do movimento pela paz:



1) No que se refere à paz israelense-árabe, o Sr. deve agir a partir do primeiro dia.

2) As eleições em Israel acontecerão em fevereiro de 2009. O Sr. pode ter um impacto indireto, mas importante e construtivo já no começo, anunciando sua determinação inequívoca de conseguir paz israelo-palestina, israelo-síria e israelo-pan-árabe em 2009.

3) Infelizmente, todos os seus predecessores desde 1967 jogaram duplamente. Apesar de que falaram sobre paz da boca para fora, e às vezes realizaram gestos de algum esforço pela paz, na prática eles apoiavam nosso governo em seu movimento contrário a esse esforço.
Particularmente, deram aprovação tácita à construção e ao crescimento dos assentamentos colonizadores de Israel nos territórios ocupados da Palestina e da Síria, cada um dos quais é uma mina subterrânea na estrada da paz.

4) Todos os assentamentos colonizadores são ilegais segundo a lei internacional. A distinção, às vezes feita, entre postos “ilegais” e os outros assentamentos colonizadores é pura propaganda feita para mascarar essa simples verdade.

5) Todos os assentamentos colonizadores desde 1967 foram construídos com o objetivo expresso de tornar um estado palestino – e portanto a paz – impossível, ao picotar em faixas o possível projetado Estado Palestino. Praticamente todos os departamentos de governo e o exército têm ajudado, aberta ou secretamente, a construir, consolidar e aumentar os assentamentos, como confirma o relatório preparado para o governo pela advogada Talia Sasson.

6) A estas alturas, o número de colonos na Cisjordânia já chegou a uns 250.000 (além dos 200.000 colonos da Grande Jerusalém, cujo estatuto é um pouco diferente). Eles estão politicamente isolados e são às vezes detestados pela maioria do público israelense, mas desfrutam de apoio significativo nos ministérios de governo e no exército.

7) Nenhum governo israelense ousaria confrontar a força material e política concentrada dos colonos. Esse confronto exigiria uma liderança muito forte e o apoio generoso do Presidente dos Estados Unidos para que tivesse qualquer chance de sucesso.

8) Na ausência de tudo isso, todas as “negociações de paz” são uma farsa. O governo israelense e seus apoiadores nos Estados Unidos já fizeram tudo o que é possível para impedir que as negociações com os palestinos ou com os sírios cheguem a qualquer conclusão, por causa do medo de enfrentar os colonos e seus apoiadores. As atuais negociações de “Annapolis” são tão vazias como as precedentes, com cada lado mantendo o fingimento por interesses politicos próprios.

9) A administração Clinton, e ainda mais a administração Bush, permitiram que o governo israelense mantivesse o fingimento. É, portanto, imperativo que se impeça que os membros dessas administrações desviem a política que terá o Sr. para o Oriente Médio na direção dos velhos canais.

10) É importante que o Sr. comece de novo e diga-o publicamente. Idéias desacreditadas e iniciativas falidas – como a “visão” de Bush, o “mapa do caminho”, Anápolis e coisas do tipo – devem ser lançadas à lata de lixo da história.

11) Para começar de novo, o alvo da política americana deve ser dito clara e sucintamente: atingir uma paz baseada numa solução biestatal dentro de um prazo de tempo (digamos, o fim de 2009).

12) Deve-se assinalar que este objetivo se baseia numa reavaliação do interesse nacional americano, de remover o veneno das relações muçulmano-americanas e árabe-americanas, fortalecer os regimes dedicados à paz, derrotar o terrorismo da Al-Qaeda, terminar as guerras do Iraque e do Afeganistão e atingir uma acomodação viável com o Irã.

13) Os termos da paz israelo-palestina são claros. Já foram cristalizados em milhares de horas de negociações, colóquios, encontros e conversas. São eles:
a) estabelecer-se-á um Estado da Palestina soberano e viável lado a lado com o Estado de Israel.
b) A fronteira entre os dois estados se baseará na linha de armistício de 1967 (a “Linha verde”). Alterações não substanciais poderão ser feitas por concordância mútua numa troca de territórios em base 1: 1.
c) Jerusalém Oriental, incluindo-se o Haram-al-Sharif (o “Monte do Templo”) e todos os bairros árabes servirão como Capital da Palestina. Jerusalém Ocidental, incluindo-se o Muro Ocidental e todos os bairros judeus, servirão como Capital de Israel. Uma autoridade municipal conjunta, baseada na igualdade, poderia se estabelecer por aceitação mútua, para administrar a cidade como uma unidade territorial.
d) Todos os assentamentos colonizadores de Israel – exceto aqueles que possam ser anexados no marco de uma troca consensual – serão esvaziados (veja-se o 15 abaixo)
e) Israel reconhecerá o princípio do direito de retorno dos refugiados. Uma Comissão Conjunta de Verdade e Reconciliação, composta por palestinos, israelesnses e historiadores internacionais estudará os fatos de 1948 e 1967 e determinará quem foi responsável por cada coisa. O refugiado, individualmente, terá a escolha de 1) repatriação para o Estado da Palestina; 2) permanência onde estiver agora, com compensação generosa; 3) retorno e reassentamento em Israel; 4) migração a outro país, com compensação generosa. O número de refugiados que retornarão ao território de Israel será fixado por acordo mútuo, entendendo-se que não se fará nada para materialmente alterar a composição demográfica da população de Israel. As polpuldas verbas necessárias para a implementação desta solução devem ser fornecidas pela comunidade internacional, no interesse da paz planetária. Isto economizaria muito do dinheiro gasto hoje militarmente e a partir de presentes dos EUA.
f) A Cisjordânia, Jerusalém Oriental e a Faixa de Gaza constituirão uma unidade nacional. Um vínculo extra-territorial (estrada, trilho, túnel ou ponte) ligará a Cisjordânia e a Faixa de Gaza.
g) Israel e Síria assinarão um acordo de paz. Israel recuará até a linha de 1967 e todos os assentamentos colonizadores das Colinas de Golã serão desmantelados. A Síria interromperá todas as atividades anti-Israel, conduzidas direta ou vicariamente. Os dois lados estabelecerão relações normais.
h) De acordo com a Iniciativa Saudita de Paz, todos os membros da Liga Árabe reconhecerão Israel, e terão com Israel relações normais. Poder-se-á considerar conversações sobre uma futura União do Oriente Médio, no modelo da União Européia, possivelmente incluindo a Turquia e o Irã.

14) A unidade palestina é essencial. A paz feita só com um naco da população de nada vale. Os Estados Unidos facilitarão a reconciliação palestina e a unificação das estruturas palestinas. Para isso, os EUA terminarão com o seu boicote ao Hamas (que ganhou as últimas eleições), começarão um diálogo político com o movimento e sugerirão que Israel faça o mesmo. Os EUA respeitarão quaisquer resultados de eleições palestinas.

15) O governo dos EUA ajudará o governo de Israel a enfrentar-se com o problema dos assentamentos colonizadores. A partir de agora, os colonos terão um ano para deixar os territórios ocupados e voluntariamente voltar em troca de compensação que lhes permitirá construir seus lares dentro de Israel. Depois disso, todos os assentamentos serão esvaziados, exceto aqueles em quaisquer áreas anexadas a Israel sob o acordo de paz.

16) Eu sugiro ao Sr., como Presidente dos Estados Unidos, que venha a Israel e se dirija ao povo israelense pessoalmente, não só no pódio do parlamento, mas também num comício de massas na Praça Rabin em Tel-Aviv. O Presidente Anwar Sadat, do Egito, veio a Israel em 1977 e, ao se dirigir ao povo de Israel diretamente, mudou em tudo a atitude deles em relação à paz com o Egito. No momento, a maioria dos israelenses se sente insegura, incerta e temerosa de qualquer iniciativa ousada de paz, em parte graças a uma desconfiança de qualquer coisa que venha do lado árabe. A intervenção do Sr., neste momento crítico, poderia, literalmente, fazer milagres, ao criar a base psicológica para a paz.

(esta é uma carta aberta escrita por Uri Avnery, 85 anos, ex-deputado do Knesset, soldado que ajudou a fundar Israel em 1948 e que há décadas milita pela paz. A tradução ao português é de Idelber Avelar. O obrigado pelo envio do link vai ao Daniel do Amálgama. O pedido de divulgação vai a todos os que desejam uma paz duradoura, nos termos já reconhecidos pela comunidade internacional).




[ * Ao ler o post no Biscoito Fino sobre o glossário macabro, me dei conta imediatamente da armadilha em que havia entrado com minhas próprias pernas: "ponderação" é péssima palavra aqui. Quis realçar a diferença de Avnery em relação a grande parte de seus compatriotas, mas com isso incorri no erro grave de colocar, ainda que indiretamente, racismo (para dizer o mínimo) como sendo "falta de ponderação". Um cidadão israelense que enxergue o Outro palestino não está sendo ponderado, está apenas sendo justo, correto, íntegro, ético. Mea culpa total. ]

sábado, 8 de novembro de 2008

Gary Francione em português


O site da Ánima, organização argentina pelos direitos animais, agora tem um espaço exclusivamente dedicado a reproduzir os artigos, entrevistas e textos do blog de Gary Francione em português (acesso direto aqui).


Essa é uma excelente notícia, e a iniciativa é merecedora dos maiores elogios. Dê uma conferida e divulgue.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

A outra encruzilhada

Do site do GAE vem a notícia da aprovação do projeto de lei complementar, na Câmara Munipal de Porto Alegre, que "desclassifica como ato lesivo, no Código Municipal de Limpeza Urbana, a deposição em locais públicos de animais mortos, normalmente utilizados em cultos e liturgias de religiões afros". Prossegue a nota:

"Em abril, uma lei que estabelecia multa para quem deixasse restos de animais mortos em vias, rios, arroios e riachos havia sido sancionada e acabou se criando uma polêmica entre religiões.
À época, o texto apresentado pelo vereador Almerindo Filho (PTB), pastor da Igreja Universal do Reino de Deus, e sancionado pelo então prefeito interino, Eliseu Santos (PTB), ligado à Assembléia de Deus, indicava multa de até R$ 330. Sentindo-se vítimas de preconceito, seguidores de religiões afrobrasileiras protestaram.
Apesar de a norma não fazer referência direta a manifestações de credo, eles afirmaram que a legislação atingia em cheio práticas religiosas afro. É comum, em despachos, deixar restos de animais, como galinha, após oferendas para orixás realizadas nas encruzilhadas.
Autor do projeto, o vereador Guilherme Barbosa (PT) disse que era necessário corrigir o erro trazido pela lei complementar, pois teria causado conseqüências negativas a atividades religiosas que utilizam o sacrifício de animais."

A votação do projeto contou com 20 votos a favor e 6 contra, e agora aguarda a sanção do prefeito.

Essa notícia me chega como um sublinhado na situação vivida nas últimas eleições. Priorizando a questão ambiental e dos direitos animais como filtro na hora em que fui escolher em quem votar para vereador (desde que do PT ou alinhado à esquerda), o cenário oferecido se mostrou francamente desencorajador. Embora pareça paradoxal, a esquerda tende a votar contra os direitos animais, e a direita, a favor. Mas não há paradoxo.

A esquerda, por definição mais sensível ao coletivo e às questões de direitos humanos, não consegue dar um passo além e ampliar as fronteiras da noção de coletividade ou incluir os animais como também sujeitos de direito. A recente votação na cidade pelo fim das carroças é o exemplo mais bem acabado da prática baseada nessa visão de curto alcance: a esquerda votou maciçamente pela continuidade do modelo que, ao pretender proteger o carroceiro, mantém o cavalo condenado à exploração. A extinção das carroças (em oito anos!) foi aprovada, mas por muito pouco, e graças aos partidos de direita. A expectativa pela libertação dos cavalos é inquestionavelmente um fato a ser comemorado, mas fica o desconforto ideológico da aprovação ter se dado nessas circunstâncias.

A direita, por sua vez, pode eventualmente coincidir sua prática política com a defesa dos direitos animais, mas não tem uma gota sequer em seu discurso que contemple de fato esses direitos. Assim como o fim das carroças pode ser desejável apenas em função do ideal do que deva ser uma cidade "desenvolvida" (portanto: cavalos? que cavalos?), a interdição aos despachos nos permite imaginar desde motivações meramente higiênicas até as escancaradamente racistas, e acho que não erraremos muito se deixarmos a imaginação correr solta nesse caso...

O defensor dos direitos animais, seja ele de esquerda ou de direita, continua tendo como tarefa a inclusão dessa pauta no projeto político com o qual se afina. Na política partidária, permanecemos todos sem representação. As convergências, assim, acabam se dando de maneira tão enviezada que estão sempre a um passo de sua própria deslegitimização, e resultam em um desgaste que pode debilitar a luta política pelos direitos animais propriamente dita.

Ah, e sobre os despachos?

Bom, acho que em uma sociedade laica todas as manifestações religiosas devem guardar os limites legais entendendo que estes têm como foro de discussão um ambiente laico. Quanto ao legislativo, é importante lembrar da diferença entre defesa da liberdade de culto e defesa da liturgia do culto. A primeira é obrigação constitucional que diz respeito a todos; a segunda, obviamente, não.

[ a ilustração foi retirada do Codex Magliabechiano (meados do século XVI), e mostra uma cena de sacrifício humano, parte integrante da religião asteca ]